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Demorar

5 Out, 20135 Nov, 2013

de Nelson D’aires

Exposição inserida no festival Encontros da Imagem edição 2013.
Em 2012 ofereceram-me o livro “António Gonçalves Pedro, Fotógrafo de Mora”, com chancela da Câmara Municipal de Mora, publicado em 2003, resultado de um longo trabalho de recuperação e edição fotográfica de Luis Vasconcelos feito a partir de um arquivo com cerca de 100 mil negativos, na sua maioria retratos, entregue pelos familiares de AGP e de que hoje a Estação Imagem é o fiel depositário. Num tempo em que a fotografia era documento raro e dispendioso, AGP tornou-se numa espécie de fotógrafo de família das gentes de Mora. A maioria das fotografias deste livro e do seu arquivo são de retratos que celebram a família e o amor em diversas efemérides, tais como: crianças em pose de aniversário, bodas de casamento, noivas caiadas de branco, famílias endomingadas fazendo pose no “Studio” em cima de um tapete desenhado com um leão em África, bebés de rendas em dia de baptizado e mulheres sentadas à mesa a escrever cartas de amor aos namorados que estavam a combater na guerra de África. O meu amor às fotografias de AGP publicadas no livro foi imediato. Impressiona-me o seu instinto, a intimidade, o mistério da história guardada. A cada fotografia folheada, a urgência de encontrar, no presente, as pessoas do livro de AGP e de cristalizá-las, agora, nos seus ambientes e nas circunstâncias de vida atuais. Esta necessidade prende-se exactamente com a angústia da consciência de que, sempre que morre alguém que foi fotografado por AGP é enterrado um pedaço do património imaterial de Mora e também do processo do seu trabalho. A memória é vulnerável e preservá-la implica uma constante corrida contra o tempo. Estudar e arquivar devidamente a obra de um fotógrafo como AGP é urgente. No mesmo ano submeti esta ideia (Álbum de Família) a concurso, tendo vencido a Bolsa Estação Imagem 2012/2013, fundo que me permitiu temporariamente transformar o livro no centro do meu mundo. Fazendo da imagem pergunta, procurei e fotografei muitas das suas personagens que encontrei. No processo, passei-o de mão em mão, por entre olhos e ouvidos, sempre na esperança de uma identificação viva e de uma morada. Andava invariavelmente comigo, influindo em todas as relações e revelações, transformando-se assim num improvisado álbum de família cheio de ligações familiares, anotações e de legendas que o original não continha. Em pouco tempo, eu já não era o fotógrafo que pedia informações mas também alguém que informava e que recontava as notícias de quem se perdeu rasto no decorrer dos anos. Antes de o livro ter dado a conhecer o fotógrafo AGP ao mundo, as suas fotografias só poderiam ser encontradas impressas nas casas e nos álbuns de família das gentes de Mora e algumas mais do Sardoal, terra onde nasceu a 17 de Abril de 1927 e que aos 16 anos deixou, mudando-se para Mora onde viveu até à sua morte no dia 13 de Outubro do ano de 1999. Interessaram-me os álbuns e a descoberta das provas fotográficas reenquadradas pelo AGP para os seus clientes e cujos originais foram publicadas no livro. AGP, na sua fotografia a preto e branco, usou sempre o médio formato quadrado (1X1), mas o que imprimia para os seus clientes eram fotografias no formato rectangular (2X3), indo ao centro da imagem e eliminando as margens laterais fazia o retracto aproximado. Nos negativos escondiam-se as fotografias na sua totalidade e a plenitude do fotógrafo, do seu olhar com identidade e plasticidade. Foram revelados apenas há dez anos, no livro-génese deste projecto.  Em Setembro de 2013, o livro completa o seu décimo aniversário e esta é também uma forma de celebrar a memória de um fotógrafo que uniu gerações e que dedicou a sua vida à causa fotográfica e à vila de Mora. A fotografia de hoje é o legado do amanhã e o fotógrafo um interlocutor da natureza humana, um mensageiro geracional. A fotografia de ontem não acaba no passado, porque a sua história continua infinitamente. E que rosto e identidade tem nos dias de hoje um dos muitos bebés, descendentes dos muitos casamentos que AGP retratou? Para além tudo, interessa a valorização do arquivo que necessita de apoio incondicional para ser tratado, catalogado, preservado e exposto. Continuar o ciclo de registo de memória “quebrado”, a construção de narrativas sociológicas da evolução das pessoas, das épocas e, acima de tudo, da história de um povo e do seu lugar, é esse o propósito essencial deste Álbum de Família.
Numa palavra: demorar, porque o tempo escolhe o que perdura. Porque devemos escolher com o tempo, explicando-lhe também o que nos importa, o que nos identifica com dignidade e orgulho.
(Nelson d’Aires, 2013)

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