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Com o livro do mundo ao lado

24 Jan, 201521 Fev, 2017

Celeste Cerqueira, Paulo Jesus, Carlos Mensil e Susana Gaudêncio

Curadoria de José Maia

 

O trabalho de Celeste Cerqueira forma-se a partir de um grande friso, oscilando no tempo e no espaço suspenso por ténues linhas, representando um percurso humano sem presença humana (à excepção das mãos, que lhe confere uma dimensão política evidente) atravessado pelos mencionados muros que separam a Arábia Saudita do Iémen, a Turquia da Grécia, os Estados Unidos do México ou o Estado de Israel da Palestina, as barreiras físicas do mundo habitado. A contenção dos elementos articula-se com a expansão do movimento de uma sequência que invoca a liberdade do cavalo, primórdio mítico da fotografia de Muybridge, e a inquietante espectralidade do cinema, num desdobramento que vai do pormenor até ao sentido total da obra, questionando a memória, a história e a ideia de comunidade.

Paulo Jesus apresenta um padrão constituído em forma de tríptico. O primeiro momento é uma projecção em vídeo de uma imagem fixa alternando entre o preto e branco e o registo a cores, que exibe quatro mãos de uma gestualidade política óbvia e conscientemente activa: o punho fechado, símbolo do poder operário, a saudação fascista, o “v” de vitória celebrizado por Churchill e o dedo do meio erguido, invocando a anarquia, a desobediência e a resistência face a uma ordem instituída. O segundo momento estabelece a ligação umbilical e sempre instável e desequilibrada entre o primeiro e o terceiro e último através de um mural pintado a grafite, homenagem à pintura e ao trabalho manual, que irá descobrir no padrão final novamente a fotocópia de várias mãos unidas, numa instalação em side-specific, sublinhando a importância da coesão colectiva e a metáfora do mergulho no universo artístico como prolongamento da interpretação política do autor.

“Art is not a lie, but is also not the truth.”

(Paulo Cunha e Silva)

 

As múltiplas peças-fragmento apresentadas por Carlos Mensil exploram a ambiguidade, a ilusão, a cumplicidade da mentira, pretendendo repensar a própria pintura, os seus suportes e a própria ideia de representação dos objectos. Um conjunto de ready-mades inspirados na obra de Marcel Duchamp, referência fundamental para o trabalho do autor, iludem com eficácia o aparente poder da visão: os estilhaços de uma portada sem paisagem, um espelho que se trasveste de porta, folhas de papel produzidas em inox, um falso interruptor do qual brotam verdadeiros fios eléc- tricos. O engano da percepção, a problematização do real e dos seus materiais e a valorização do vestígio como guia leal para a interpretação são algumas pistas que permitem a compreensão deste trabalho.

“(…) Poderia o artista que não tem onde cair morto provocar tal tempestade?”

(Alberto Manguel, Livrar-se dos artistas)

 

Época de Estranheza em Frente ao Mundo baseia-se no desenho gravado a chapa de metal, na geometria euclidiana e no cinema de animação, para especular sobre a realidade da política como centro de decisão (a sala de negociação), as várias encenações do poder, a natureza, e a experiência do humano num tempo presente, de fuga e transição, que apenas a arte e a utopia podem redimir. Estruturando-se em três conceitos inaugurais, o de vórtice, o de mesa e do manifesto, desenvolvidos respectivamente em entrevista pelo filósofo Nuno Nabais, pelo geógrafo Álvaro Domingues e pela escritora/poetisa Hélia Correia, é possível entender o complexo horizonte deste trabalho. O vórtice é identificado pelo poeta latino Lucrécio no De Rerum Natura, propondo, sob a égide de uma perspectiva materialista, a negação de um destino pré-determinado e o anúncio de uma revolta da matéria enquanto desvio natural do movimento dos átomos (a tempestade enfatiza esse primeiro conceito). A mesa representa a matriz, a cartografia, o arquétipo no qual se pensa a sociedade, o território e a comunicação. O manifesto transforma o discurso político em poético, potencia o pensamento artístico, a linguagem estética e a liberdade de criação. E assim se vai entranhando e estranhando o mundo, em época de avanço científico e escassez de análise crítica.

(Joaquim P. Marques Pinto)

 

PROGRAMA:

24 de janeiro 2015,16h | Inauguração da exposição “Com o livro do mundo ao lado” | Exposição coletiva com: Carlos Mensil, Celeste Cerqueira, Paulo Jesus e Susana Gaudêncio

31 de janeiro 2015, 17h | “Com o livro do mundo ao lado” – Conversa entre os artistas e Joaquim P. Marques Pinto

21 de fevereiro 2015 | Finissage da exposição coletiva “Com o livro do mundo ao lado”

 


Rua de Miraflor, 159,
4300-334 Campanhã, Porto

terça a sábado,
15:00 às 19:00


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