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o que tende a não ser

Set 6Out 4

“o que tende a não ser” de Rui Neto

Curadoria: José Maia e João Terras

Dia 28 de setembro, 17h
Lançamento da publicação de Rui Neto, Edições 3 | 3 Conversa e visita guiada com o artista

“A espessura do visível”
“A Cerca é extensa e excêntrica, foi o desenho que a montou.” (nas palavras do artista). Santo Agostinho afunilava a questão quando escreveu: ele (o tempo) porque tende a não ser? Sobre o inegável ponto de partida diante do Tempo, o lugar sobre o qual caímos nesta questão será o da imensidão da existência. Nem sobre o lugar irreversível do pretérito nem sobre o potenciar inacessível do sequente, a procura insaciável por um corpo do presente adivinharia ao filósofo de Hipona a espessura de uma possibilidade para a existência real do Tempo. O Tempo seria então da ordem do incorporável, do indivisível, do indemarcável. Esta consideração confere à perceção do Tempo uma existência presente, ativa sobre as imagens-vestígios do passado e as premeditações especulativas do futuro, num encaixe infinitamente divisível, onde nunca uma imagem será decididamente passado nem insustentavelmente futuro. A imagem é presente, tudo sobre o qual olhamos é o que tende a não ser , é presente de uma memória em processo, de um arquivo em acumulação, de uma realidade sem referente. As imagens de Rui Neto percorrem este sentir existencial, transitam entre diferentes lugares, comunicam divisíveis realidades, acopulam camadas entre o individual e o coletivo, procuram por final a sua existência enquanto matéria da ordem do incorporável, do indivisível, do indemarcável. Não se definem como representações de uma ficção plena, tratam-se de imagens de uma realidade outra, de um acesso ao real expandido e estendido, de uma permissão à imaginação que existe aqui enquanto meio de representação de uma imagem aproximada. Os resultados constitutivos acedem desta maneira a um lugar paralelo à perceção do tempo em cima tratada, tornando-se assim imagens de uma extensão do não visível, cruzando tempos, medidas e campos de possibilidades múltiplos. Depois da presença em exposições coletivas como “Um encontro inesperado com o diverso” (2012) e o “O passeio, a escuta e o respirar da acção” (2015) no Espaço MIRA, Rui Neto sequencializa agora nesta sua exposição individual – entre inéditos, trabalhos passados e trabalhos recentes – aquilo pela qual premedita a sua prática: o desenho e a sua ordem enquanto referente. Existe essa perceção, direta por parte do artista, de um domínio do lápis (a grafite enquanto matéria) sobre papel, um domínio que não se define somente numa direção técnica mas que se encontra por uma perceção de mediação compatível entre aquilo que será o lugar da procura por parte de quem cria em paralelo com aquilo que permeia alcançar. Nos trabalhos morosos e subversivos de Rui Neto, somos beliscados para a permissão do desenho quando este acede à espessura da gramagem da matéria, à planimetria do tempo, ao volume da memória e à grossura da imaginação. E o desenho tem e encontra neste enlace essa competência, a capacidade de nos permitir o acesso a uma espessura do real indelevelmente insustentável através de qualquer outro meio. Isso ser-nos-á permitido em duplos balanços, ora pela profundidade e preciosismo com que vai a fundo no detalhe e o rigor das matérias, pela forma como desvela e aglomera planos, composições e perspetivas em reconstituições de escala, imaginação e memória de arquiteturas e habitações resultantes em imagens de uma perceção insuspeitável, até ao modo como trabalha o posicionamento e o corpo dos limites : Limites de imagem e de representação, limites de corpo e tensão. Tal como a Cerca , 2016, na sua leitura quadrupla, se suspende e afirma perante o anular do seu chão, afirmar-se também enquanto limite de entre este e o outro. Tal como nos permite o acesso às costas de dois Altares Barrocos – O que tende a não ser, 2019, apresentando-nos a imensidão da sua composição e revelando-nos a permissão de um outro limite suspendido. Assim como assume o relevo dos interstícios urbanos, 2012 afirmados sobre os limites da sua segregação métrica. Num aglutinar poderíamos somar que a obra de Rui Neto encaixa-se sobre duas chaves: uma primeira, a ordem expressa pelas permissões e acessos que estabelece no lugar do Desenho e uma segunda, sobre a espessura – que neste seguimento encontra – no campo da representação, circundando algures entre um espaço físico e temporal que será o da criação de imagens indemarcáveis e fecundas diante daquilo que procura comunicar.

João Terras (setembro 2019)


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