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“pôr a paisagem a vibrar em consonância_______”

7 Jun, 20145 Jul, 2014

com: António de Sousa, Tito Mouraz, Samuel Silva, Marco Moreira (fotografia, instalação, som e vídeo)

Curadoria: José Maia

 

O olhar pratica uma acção desdobrada sobre o real, visível numa complementaridade sua entre uma extensão objectiva e uma dimensão subjectivada, vinculando o fenómeno perceptivo (do real) ao fictício (do imaginário), unidos por uma visão psicológica da realidade. Pôr a Paisagem a Vibrar em Consonância______ versa, primeiramente, sobre essas imagens que partindo do real são arrastadas para o irreal, para o ambíguo e o hesitante, uma objectividade subjectivante que também encontra espaço no olhar do espectador pela ordem da imaginação.
Olhar é, assim, um pensamento dependente: existe pelo que se pensa, e pensa-se nele pela sua materialidade. Anunciar a paisagem – a epígrafe desta exposição – é proferir sobre uma visão-percepção do mundo, que nasce do encontro entre o espaço e o corpo, pelo assombro de um duplo ver/sentir, possibilitando o provir de algo a partir daí. Esta corporalidade sensitiva aproxima-se da inerência entre o corpo e o mundo de Maurice Merleau-Ponty, que supõe uma implicação mútua entre o espaço e o sujeito, onde o olhar é vidente e visível ao mesmo tempo. Podemos falar, igualmente, de uma outra paisagem, uma paisagem pessoana ou llansoliana, que advém do corpo dos afectos e dos estados de alma, um lugar da escrita, delineado em paisagens.
Nesta trajectória, assinala-se uma crise entre o real e a paisagem, pois o olhar sobre esta é do alinho do sensitivo, do mental e do mnemónico. A paisagem não é, somente, um mero mecanismo cénico, mas, também, uma configuração singular do mundo que perdura em cada sujeito. O olho elege, define, interpreta, enquadra e edita aquilo que vê. É um olhar-criador, actuante, que se concretiza num movimento constante de indagação e desassossego, e que vê com o todo. Neste sentido, em Pôr a Paisagem a Vibrar em Consonância______, os lugares citados estão encerrados numa dicotomia espaço-tempo, num sense of place, que reflecte sobretudo uma apercepção de lugar, e não apenas o lugar físico em si.
Na série fotográfica Open Space Office, de Tito Mouraz, as paisagens industriais – apresentadas em imagens abstractas e parceladas –, presentificam-se através de uma acuidade plástica, espelhada no trabalho feito sobre dimensões como a luz, o cromatismo, a focagem e a claridade. Aqui, a relação do corpo com a paisagem é central, fazendo-se através do movimento e do tempo sobre ela, procurando um contacto tridimensional com o lugar. A transitoriedade destas paisagens articula-se às suas constantes transfigurações, através da determinação edificadora da humanidade, e, da vontade regeneradora da própria natureza. A presença humana é mais pressentida em algumas fotografias, quando nos é dado a ver as suas máquinas de transformação, indicando uma acção do passado ou a premência de um futuro. São, assim, imagens que nos apresentam um real provisório, lentamente em mudança de forma, que vive, irreversivelmente, num permanente vir a ser.
As duas projecções de slides de Samuel Silva – À Prova de Bala e Portelos, Cancelas e Biqueiros –, cursam pelo mesmo território geográfico e despontam de uma mesma metodologia: a sensação causada por um lugar, dá ordem a um impulso e depois a uma sistematização e tipologia de trabalho. Convocando o ensaio teórico-visual, Pode-se Escrever com Isto (1977), de E. M. de Melo e Castro, À Prova de Bala, apresenta um inventário de placas toponímias dilaceradas por tiros ou pelas alterações dos nomes dos locais que direcionam. Esta projecção inicia e finaliza com um sinal de stop, surgindo a meio uma espécie de narrativa, através de uma imagem que nos coloca quase no interior de um dos buracos dos tiros. Estas placas, cuja função é orientar um rumo, têm aqui um sentido desviado, seja pela sua mudança de funcionalidade ou pela alusão à violência de um projéctil, cuja intenção indefinida orienta o observador a questionar-se sobre os possíveis porquês. Já, em Portelos, Cancelas e Biqueiros, tratam-se das imagens de construções do Homem em ambiente natural, para delimitar um certo território. A plasticidade destas edificações ultima-as como esculturas involuntárias, demonstrando a passagem de uma condição de transitoriedade para uma situação de perenidade, onde a intenção momentânea da sua concepção, espontaneamente, dá lugar à sua própria integração no espaço.
A instalação sonora Counterpoint Trains, de Marco Moreira, convoca o disco Different Trains / Electric Counterpoint (Kronos Quartet, Pat Metheny) de Steve Reich, apresentando um conjunto de composições – criadas a pedido de Moreira a vários guitarristas –, que remetem para sons de comboios. No disco, o lado A é composto por sons reais de comboios e estações, e o lado B por três movimentos escritos, exclusivamente, para a guitarra de Pat Metheny. O artista vai entrecruzar e inverter os dois lados do disco de Reich, criando um contraponto e a possibilidade de trilhar um caminho inverso. Estas paisagens musicais, acompanhadas por um dossier sobre o processo entre o artista e os guitarristas, convocam uma memória sonora e assinalam toda uma simbologia ligada aos comboios – pós-industrial, distância/proximidade, presença/ausência, trajecto entre um ponto e outro –, mas, sobretudo, a sua relação com as paisagens do quotidiano, trabalhando não sobre o real, mas, sim, nas palavras do artista, sobre “o que se pode devolver a ele.”
A imutabilidade da imagem fotográfica dá lugar ao espaço da imaginação, através das suas propriedades de incompletude e imprecisão. Este predicado fotográfico é perceptível no vídeo e no conjunto de fotogramas de Tales from…Nowhere, de António de Sousa, recolhidos de filmes caseiros que documentam viagens pelos EUA. Esta faculdade ficcional da fotografia é fomentada pela heterogeneidade das paisagens, que combinam acontecimentos marcantes da História dos EUA (e, assim, do mundo ocidental), imagens tipicamente turísticas, e, fotogramas aparentemente mais abstractos, que apresentam referências pictóricas, literárias e cinematográficas. Os traços contínuos destas imagens são o vazio e a procura (através de um salto, de uma queda ou de um apontar para o desconhecido) que estimulam a ficção, e, talvez, remetam para essa qualidade inerente da fotografia que é a ausência na própria presença. É no vídeo que estas dimensões da procura e do vazio adquirem, ironicamente, um sentido maior: o farol, um instrumento de orientação, é apresentado numa imagem diurna, retirando-lhe a funcionalidade de direcionar, e deixando essas questões sem resposta. Como nós, muitas das pessoas presentes nas imagens, estão de costas e observam, criando várias camadas de olhar, visíveis ou incógnitas: o nosso, o do realizador/fotógrafo que está a criar a imagem que vemos e o da visão dessas pessoas que de costas olham para uma outra paisagem. Aqui, esse virar de costas, não tem um sentido negativo, não se trata da recusa da imagem, mas sim de um movimento em frente, de uma mesma direcção.
Não se pode dissociar a imagem mental, criadora, da presença do Homem no mundo, e a paisagem é uma das mais manifestas proporções dessa reciprocidade. Através de paisagens sonoras e imagéticas, Pôr a Paisagem a Vibrar em Consonância______, procura interpelar essa correspondência, abordando o transitório e o perene, os locais de orientação, a memória, a possibilidade de ficção e a alternativa de percorrer um caminho inverso. Sobretudo, trabalha essa inconstância do real, sem haver propriamente um olhar negativista sobre ele, mas uma visão regeneradora, um olhar de luz e clareza.
(Sara Castelo Branco)

 

PROGRAMA:

7 junho de 2014, 16h | Inauguração da exposição “Pôr a paisagem a vibrar em consonância_______”

21 de junho 2014 18h15 | Conversa entre Sara Castelo Branco, artistas, curador e público

5 de julho 2014 | Finissage da exposição “Pôr a paisagem a vibrar em consonância_______”

 


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4300-334 Campanhã, Porto

terça a sábado,
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