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Espaço Mira

ALEGORIA de Arlindo Siva e Sónia Neves

O tempo demora uma vida

 

A Imagem tem em si, e é em si, uma leve membrana de informação do real e da imaginação, tem em si e é em si aquilo a que Merleau – Ponty se referia como uma quasi-presença (Ponty, O Olho e o Espírito). É por isso no gesto de quem olha e no corpo de quem a dá, no olho do ser vidente e visível, que essa membrana arde e se aparenta mostrar.

É inequívoco a forma vaga como uma olha a outra. Existe algo como olho no olho. Aos poucos, no perfilar das duas imagens que compõem o espaço torna-se perceptível o desfazer desse frente a frente para dar lugar a uma simbiose onde a quasi-presença subjaz nesta nova prova de vizinhança, na substância de tensão que reside entre estas duas imagens. Projectam-se, iluminam-se. Uma, projeta-se na outra, numa presença que ultrapassa aquilo que poderia ser a sua representação. Uma, ilumina-se da outra, como insurgidas de uma mesma luz.

Uma, por si, existe na outra.

O arquétipo de uma imagem se encontrar na outra, aqui, está também, impreterivelmente, no universo que ambas convocam de forma particular. O novo projeto de Arlindo Silva e Sónia Neves, Alegoria, devolve-nos um universo tão vasto e universal quanto ontológico e íntimo. A inscrição – através da convocação do Atelier com a sua expansão ao lugar da Casa – revela-nos ou propõe-nos revelar este dúplice entre aquilo que será o universo familiar e o espaço de criação. O espectro dissimula-se na definição de um lugar precisamente mais vasto, tão mais vasto quanto desmedido nos interstícios de acção da intimidade e do labor. É extremamente delicada a forma como toda esta esfera da família – que assumirá dimensões ainda maiores em ambas as propostas – transborda nestas duas imagens. Como tanto e tão pouco nos é permitido.

Uma, por si, existe na outra, em todas as outras.

O auto-retrato de Sónia Neves dissimula-se entre o intervalo da posição de quem olha e o lugar da posição de quem a vê. Nesse golpe do olhar, na precisa distância que existe entre aquilo que vemos e aquilo para que olha.

A inscrição da figura omnipresente do outro manifesta-se em ambos os retratos, um existe para outro como sintoma de um reflexo sem mediação, é a premissa sintomática de um processo de trabalho que se estende às circunstâncias da vida. A substância oculta do retrato de Sónia, revela-se na forma desprovida da sua presença, no vinco e no recorte da sua posição, na mancha que recobre o seu peito, nesta substância que traça o sublime e a catarse das metamorfoses de um corpo materno. A certa altura o auto-retrato de Sónia Neves torna-se tão mais Humano e universal do que de si própria. Por excelência o rizoma mais belo da vida.

Por sua vez, a pintura que Arlindo Silva apresenta, condensa o duplo das circunstâncias. Condensa sempre – até porque a pintura o faz sempre – uma imagem de uma imagem, propondo aquilo que será o sulco de todos estes mapeamentos e universos paralelos. Têm tanto de quem olha como para quem vê, propõem, nesta duplicidade do retrato, todo o processo criativo, tudo aquilo que podemos encontrar para lá da forma precisa da imagem. Entre a figura do pintor e o espaço, o atelier é-nos sugerido – tal como o podemos encontrar na imagem de Sónia – como um lugar de processo em aparente processo de si mesmo. Parece recompor-se, reconstruir-se, renovar-se.

O súbito da circunstância a que a pintura de Arlindo nos habituou – num mapeamento daquilo a que poderíamos chamar de um universo do próximo – vê-se timidamente revertida numa encenação da sua figura que se explica pelo contexto do universo em que se insere. A par, é coisa da pintura sabemos nós, mas a pintura de Arlindo Silva é, mais do que em qualquer outro caso, a contaminação de todo um universo da imagem sem nunca nela se esgotar. É sempre mais.

Em última instância resta-nos conviver nesta dicotomia de contaminações a par daquilo que será o lugar e o tempo da fotografia, daquilo que será o lugar e o tempo da pintura. O tempo demora uma vida.

Será talvez, nesse limbo alegórico da virtualidade da imagem, onde a paisagem do ser se inscreve, que se poderá encontrar a poética e a dialéctica de um espaço tão deles quanto nosso.

 

João Terras