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Espaço Mira

PARA ALÉM DA MEMÓRIA CONHECIDA

Collaboration is a love affair; it segues from admiration to anxiety, rejection to rage, desire to envy, powerlessness to misunderstanding, from not getting what you want but maybe coming nearer to knowing what you thought it might be.

Katherine Clark – Two Minds: Artists and Architects in Collaboration

 

Para Além da Memória Conhecida é o culminar de um processo de trabalho colaborativo entre jovens artistas e arquitectos, com a duração de duas semanas. A premissa era simples: três duplas de artista(s)/arquitecto(s), desconhecidos entre si, desafiados a trabalharem em conjunto. Não se procuraram estabelecer as diferenças ou definir as semelhanças mas promover um encontro disciplinar no sentido de perceber como podem ambos os territórios ser cruzados, que aproximações e diálogo são possibilitados.

Apesar da linguagem diferente e entendimento distinto, artistas e arquitetos partilham afinidades; é possível ler paralelismos entre ambas as práticas, o que torna pertinente compreender o que sucede quando desafiados a colaborarem, a saírem das suas zonas de conforto.

Ao longo da história temos assistido a vários artistas desenvolverem o seu trabalho em temáticas consideradas próprias da arquitectura, que por meio de instalação ou escultura procuram experienciar o pensamento arquitetónico ou investigar o espaço e as transformações da cidade e do habitar. Paralelamente, vários são os arquitetos que se têm movimentado em campos próprios das artes plásticas como são a instalação, a performance, a ilustração entre outros, como forma de experimentar e investigar, de produzir um discurso crítico ou apenas de se libertarem das condicionantes do programa e exigências do cliente, das limitações do terreno ou regulamentações. Nas últimas décadas temos inclusivamente assistido ao aparecimento de projetos resultado de colaborações, mais ou menos pontuais nas carreiras de arquitetos como Herzog & de Meuron, Steven Holl, Tonny Fretton, ou Frank Gehry, e artistas como Thomas Ruff, Vito Acconci, Jeff Wall ou Ai WeiWei, e também de coletivos formados por membros provenientes de ambas as áreas, à semelhança do coletivo MUF, MAP Offce ou Sans Façons, comprovando o interesse e potencial criativo do encontro.

Deste desafio concreto tornou-se evidente a necessidade de se criar uma atmosfera de confiança e curiosidade, não necessariamente sem alguns momentos de tensão, que conduziram a um processo crítico/reflexivo que se pretende não se esgote neste exercício, mas permita impulsionar propostas de aplicação na prática artística e arquitectónica. Apresentam-se obras distintas porém semelhantes no facto de não ser imediata ou mesmo percetível a função de cada membro, artista ou arquiteto, sendo o resultado maior do que a soma das partes.

José Oliveira e Fala Atelier partem de um elemento tradicional e apresentam Namoradeira, uma escultura/instalação que estabelece uma relação entre a sua forma e a função configurando um espaço que se encontra entre o público e o privado, de tensão que porém convida à partilha, obriga a uma proximidade e contacto visual perdidos com a era digital. Através de som, provoca-se a conversa e a interação. Apresenta-se uma reflexão sobre a atualidade, uma sociedade que tem como base o trabalho e a distinção de classes; a obra constrói-se de um único elemento multiplicado, que configura as várias camadas necessárias e que sobrepostas lhe dão consistência. Duzentas folhas de papel vincadas representam vidas em suspenso, histórias que não se lêem ou se vivem plenamente.

Um Quarto, é a proposta dos artistas Jérémy Pajeanc e Maria Trabulo com LIKEarchitectse Mariana Pestana que se debruçaram sobre a realidade da habitação precária existente na área de Campanhã. Apesar de provisória e temporária, esta condição perdura com o passar dos anos. De caráter performativo, esta instalação convida o visitante à aproximação e conhecimento de uma realidade marcada por um número, duzentos.

Felícia Teixeira, João Brojo e FAHR 021.3 propõem uma provocação através da repetição descontextualizada da realidade encontrada no espaço expositivo. Out of space experience resulta da apreensão e leitura por esta dupla efetuada do estado atual deste antigo armazém fabril. O reflexo sem espelho e a luz espelhada configuram uma paródia através de elementos geralmente associados ao desenho, a ferramenta de ambos artistas e arquitetos – o cavalete – provocando uma aparente e estranha experiência do espaço, apesar do imediato reconhecimento de todos os seus elementos.

 

Rita Breda