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ALHEAVA_O LUGAR DOS AFECTOS de Manuel Santos Maia

Acompanhámos o Maia a Moçambique no verão de 2014. Era a nossa segunda viagem ao país mas esta ida foi não só uma viagem num outro tempo mas a um outro país pelos olhos de quem vorazmente procurava as cores, os traços, a luz, as casas, os cheiros, a música …

Subimos até Angoche e Nampula e percebemos aí melhor o que é um mapa mental desenhado pela memória atualizada e reconstruída ao longo do tempo pelos relatos da família. Por isso, reconhecemos com ele o que não conhecíamos, partilhámos as suas memórias como se fossem nossas num vaivém de descobertas e emoções.

Obrigado, Maia!

Manuela Matos Monteiro e João Lafuente,

 

Esta é a terceira exposição que corresponde à segunda parte do projecto “Alheava”. A primeira foi dedicada ao passado colonial português, centrando-se na província de Nampula anteriormente designada Província de Moçambique, da qual faz parte a Ilha com o mesmo nome. Voltei ao país quase 40 anos depois, em 2014, com a Manuela Matos Monteiro e o João Lafuente, e foi toda uma viagem de descoberta e redescoberta. Esta exposição é de alguma forma o resultado dessa viagem, passando por Maputo, antiga cidade de Lourenço Marques, e depois subindo para a província de Nampula que aqui está presente. Nesta exposição encontram-se inscritas as imagens da cidade e dos locais que visitamos. Aqui encontramos imagens da casa onde vivi: o exterior e também as pessoas que nela habitam; essas pessoas estão inscritas nas grades, numa composição em losangos que por sua vez remete para a composição das grades de protecção da casa. É uma colagem com desenho de luz, com retroprojecção e também fotografia impressa. Nas fotografias eu também apareço; são imagens que foram captadas pela Manuela Matos Monteiro e pelo João Lafuente e em que apareço a contactar com quem habita e explora agora a loja. No piso superior da casa, encontro-me com o membro mais velho da família, uma senhora que vive no lado direito da casa geminada. Ao lado da casa encontra-se o lugar onde eu e o meu irmão nascemos, o hospital Marrer.

A exposição começa com uma fotografia em que duas crianças vão a caminho da escola; a palavra Abril está em destaque, porque as grandes transformações daquele país estão intimamente ligadas a Abril, porque a exposição acontece neste mês da renovação. Cada parte da fotografia é para mim também uma fotografia. O enquadramento da praia, projectada em três planos diferentes, três enquadramentos que juntos quase poderiam dar uma outra fotografia maior. A fotografia serve também para eu desenhar, para recompor, criando outras narrativas. A ideia de tempo está presente na fotografia seccionada e presente em cada uma das porções em separado; a fotografia cria ela própria uma teia. A ideia de grelha que protege deverá ser entendida como uma teia de ligações, o que liga e une. Os losangos que se tocam uns nos outros, numa espécie de relevo, refletem a recepção entusiasta por parte das pessoas que estavam nas lojas. Os losangos que se assemelham a células que não se tocam, mas formam uma teia, correspondem ao contacto com a habitante actual da casa que eu não quis visitar por respeito da sua privacidade. Na composição da casa está uma buganvília, tão característica do país.

Há um grande mar, um grande banho também todo ele fragmentado, uma fotografia que se expande, que ganha outra configuração definida em termos de composição na horizontal; transmitindo a ideia de calmaria, de apaziguamento. As cores dominantes da exposição são o vermelho e o azul. Uma cor mais quente e uma mais fria, que se relacionam com a terra e com o mar, com o clima: a terra vermelha, a temperatura…

A ideia de mapa e de espaço está muito presente na exposição: o mapa do percurso que fizemos está desenhado com varas de madeira coloridas a aguarela: o aeroporto de Nampula, a cidade, Angoche, Ilha de Moçambique, Praia das Chocas e novamente Nampula.

Angoche foi de alguma forma o primeiro lugar da família: o meu avô foi para Moçambique em 1939; na década de 40 sobe primeiro para Lourenço Marques, sendo entretanto chamado para a província de Nampula. Até então, as casas eram feitas de colmo e é ele que introduz a construção em betão. São muitos os testemunhos da passagem do meu avô por Angoche e por isso foi o primeiro lugar que visitei. Ele construiu muito em Angoche e foi precisamente a primeira localidade que quis visitar. Encontramos muitos prédios construídos por ele e encontramos pessoas que conheceram o meu pai, e isso foi uma experiência muito forte. Esse foi o lugar de enamoramento do meu pai com a minha mãe, sendo a casa da Praia das Chocas o lugar que o meu pai ofereceu à minha mãe, numa celebração de casamento e mater . nidade. Angoche é uma cidade que é conhecida por num passado distante acolher etnias diferentes, com religiões diferentes que conviviam, variadas etnias, grupos diversos e, essa miscigenação, é particularmente interessante. Há ainda muitas coisas que não consegui partilhar, cada lugar justificava uma exposição individual. A próxima exposição será dedicada à Ilha de Moçambique.

Tudo isto são os lugares dos primeiros afectos entre a casa onde vivi, e a Praia das Chocas onde passamos grande parte do tempo. O Norte é quente, e a Praia das Chocas seria o lugar que ajudava a suportar melhor as altas temperaturas, daí a ideia de quente e de fresco na exposição. Creio que são ima – gens muito sensoriais, que de alguma forma convocam o abstracto. A cor e a pintura estão muito presentes, mas a ideia de estrutura, de racionalidade também se encontra numa paisagem intensa… As construções arquitectónicas são fascinantes e estão ali, a partilhar a rememoração de uma viagem, mas que de alguma forma proporciona uma outra viagem.

Excerto de uma conversa maior entre Maria Odete Correia e José Maia