Mira Forum
Espaço Mira

a casa já não é casa para quem morar saber mais do mundo

Neste quinto momento do projeto artístico desenvolvido para o Espaço MIRA convocamos a construção, a desconstrução e a recuperação arquitetónica. Observa-se aqui o potencial das casas, fábricas, armazéns e outros espaços deste território, com ênfase nos materiais que os compõem e nos rodeiam. Com as obras de Felícia Teixeira e João Brojo, Tiago Cruz, José Martins Leite, e Jérémy Pajeanc, apresenta-se um novo olhar sobre estes armazéns e a cidade do Porto.

A exposição inicia-se na própria Rua de Miraflor, à entrada do Espaço MIRA. Visível a partir do exterior do espaço expositivo, o vídeo de Felícia Teixeira e João Brojo apresenta as ilhas desta rua projectadas nas portas do Espaço Mira, condensando nesta tela a heterogeneidade destas vivências. As ilhas – forma de habitação operária caraterística da cidade do Porto, massificada com a industrialização no final do século XIX – revelam uma arquitetura de partilha e adaptação. Por meio da projeção e de um conjunto de publicações esta dupla de artistas convida o visitante a entrar neste universo habitacional e olhar atentamente para os elementos que o compõem. Estas imagens revelam em cada porta, cada janela, cada cor, a criatividade nas soluções para os problemas do habitar atual.

Após esta visita que nos remete ao início da industrialização da cidade deparamo-nos com a arquitetura no seu impulso modernista. Mudamos de escala e passamos à alusão a uma grande construção, o Coliseu, e somos transportados para a vista de cima para baixo ou de baixo para cima da rua Passos Manuel. Para trabalhar o Coliseu, Tiago Cruz parte da imagem fotográfica do edifício e transforma-o novamente em projeto. O edifício volta para a mesa de trabalho no atelier, onde passa por um processo de desconstrução e reconstrução. Agora, dentro do espaço expositivo, os objetos e o monumento ganham novos contextos. Diante da obra estamos no interior que, contudo, nos remete ao exterior. A presença da luz e dos suportes próprios da escultura, ou a sombra desenhada pelas formas, remetem para o desenho da luz na arquitetura da cidade. Pela inversão, incompletude e substituição de materiais, estes trabalhos convocam a nossa capacidade de reconstituição, processo paralelo ao da recuperação, que por subtração ou adição assistimos hoje, fazendo ainda referência à importância de um elemento como o Coliseu, no interior de um organismo em constante mudança, como é a cidade.

Da construção monumental passamos à intimidade da construção interior, num apontamento que exige a nossa aproximação para nos determos numa montagem de imagens fotográficas de pequena escala que Jérémy Pajeanc nos propõe. Um espaço desabitado que dialoga com o espaço que o artista habita no Armazém 4. Ao fundo da sala deparamo-nos com uma composição ao nível dos nossos pés, sobre o pavimento, como que própria do lugar, construída com diferentes materiais de diferentes espessuras, texturas e cores, num jogo de transparências e opacidades, que por meio de iluminação artificial reflete o espaço envolvente e compõe um novo, que se estende pela janela em frente. A recuperação dos armazéns onde hoje habita o Espaço MIRA deu-se em diálogo com o passado, deixando inscrito nos materiais as marcas do tempo e dos processos construtivos, com os quais José Martins Leite vai dialogar. Na multiplicidade dos materiais vemos a multiplicidade das imagens, os vários tempos que estão para além da materialidade.

Ao fim do percurso encontramos espelhado na porta posterior o ponto de partida, a entrada e a projeção de Felícia Teixeira e João Brojo. Um percurso pela experiência do lugar, da rua à cidade, da escala da habitação operária ao monumento, da arquitetura aos seus materiais. A exposição estende-se ainda ao armazém 4, que se mantém inalterado apesar das intervenções de manutenção. Com os elementos presentes neste espaço, Jérémy Pajeanc vai dialogar com o passado utilizando materiais de construção, numa intervenção em que nos apresenta diversos enquadramentos. Vamos redescobrir este armazém e ser convidados a olhá-lo como que pela primeira vez. As telhas, o gesso, o grafite, os resíduos do solo, o betão, os azulejos, os espelhos, são materiais que nos revelam um jogo entre interior e exterior. O artista apresenta construções que convocam o espaço exterior no interior do armazém, espaços devolutos sobre os quais actua, desenhando janelas que sublinham uma abertura do espaço, pelo seu negativo. Num segundo momento de apresentação de performance, durante a finissage, que marcará simultaneamente a inauguração da homenagem a Marguerite Duras, Jérémy Pajeanc irá convocar, por meio de novos enquadramentos e no mesmo espaço, o universo da escritora e realizadora.

 

José Maia, Ana Pinto, Joaquim Pinto, Regina Machado, Sara Branco