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Espaço Mira

Do Outro Lado

DO OUTRO LADO

A mostra reúne um conjunto de artistas brasileiros que atuam maioritariamente com os suportes fotografia e/ou vídeo. Ainda que partindo de abordagens e procedimentos diversos, percebe-se aqui um fator de convergência centrado em uma ideia de imagem que se mostra pouco comprometida com a representação em sua acepção mais convencional, e onde a imaginação parece prevalecer como chave de [re]interpretação do mundo. Artistas procedentes de quatro diferentes estados do Brasil são aqui reunidos não por apresentarem em sua produção características deliberadas de uma qualquer “brasilidade” – uma demanda de resto sempre inglória, esta por certa tradução plástica ou visual de certos clichês ou estereótipos culturais –, mas pelo facto de trabalharem com a imagem estática ou em movimento em vieses alargados, que acabam por gerar certas afinidades. Tais vieses podem emergir seja na forma de registo de acções, seja como estratégias para a instalação da ficção, ou ainda como dispositivos auto-interrogativos dos processos que a fazem gerar – a ela, imagem.

Do outro lado faz referência tanto à ideia mais imediata de margem em sentido geográfico-alegórico – as duas extremidades territoriais separadas pelo Atlântico aqui subentendidas – como, de outra forma, à exploração de alguns aspectos presentes na produção destes artistas. Aspectos que podem manifestar-se tanto em uma ideia de jornadas ou narrativas mais e menos intimistas, eventualmente alicerçadas pela presença da paisagem e por uma componente ficcional, como no interesse em comentar ou problematizar instâncias inerentes à própria linguagem. As imagens fotográficas de Bruno Vilela, Ding Musa [1979], Fabiana Wielewicki, Glaucis de Morais e Ronaldo Brandão e os trabalhos em filme e vídeo de Luiz Roque [1979], Roberto Bellini [1979] e Wagner Malta Tavares [1964] desenvolvem-se a partir de processos e inquietações díspares mas oferecem aproximações a partir das possibilidades abertas pelos fatores acima referidos. Em alguns casos a remissão ao outro lado pauta-se no referencial concreto: é o caso das fronteiras territoriais pesquisadas por Ronaldo Brandão [1964] em âmbito europeu (Belfast, 2014), onde executa as acções das quais seu residual imagético é aqui apresentado. Imagens que obviamente não se esgotam no exercício estético, em seu silencioso comentário sobre a condição de isolamento e separação que mais e mais caracteriza a existência do indivíduo na contemporaneidade. É também, em outra medida, o de Fabiana Wielewicki [1977], ao enunciar – em registo mais poético – uma travessia transoceânica (nos dípticos da série da qual esta exposição empresta seu título, Do outro lado, 2008); um percurso cuja promessa de (in)completude parece estar contida na singela operação gestual que faz par com a paisagem marinha e indicia a ficção como ativador de certa melancolia.

De modo diverso mas também conjugando estes mesmos elementos, as imagens de Bruno Vilela [1977] captadas na Serra do Gerês (Barbárie e Gerês, 2014) incorporam a natureza como território para a prática ficcional e sinalizam o interesse do artista pelo imaginário fantástico e mitológico que alimenta também sua vasta produção pictórica. Já em Double sense (2011), díptico de Glaucis de Morais [1972], o fantástico é discretamente incutido no quotidiano na furtiva acção noturna que se divisa como um flagrante intimista. Sob o claro-escuro da iluminação alternada, a figura humana ganha contornos sobrenaturais, como o de uma improvável aparição, conferindo um toque de delicada fantasmagoria a um ambiente perfeitamente familiar

Roberto Bellini [1979] apresenta em Acéphale um outro lado da experiência privada dos motéis. Tipicamente espaços voltados para encontros sexuais, surgem neste filme convertidos em ambientes que se oferecem a um elaborado exercício plástico, onde – na ausência do corpo – revela-se um erotismo de outra ordem a emanar das muitas texturas dali extraídas pelo artista. A abordagem desviante de um determinado objecto ou tema interessa também a Ding Musa [1979], que em sua prática fotográfica tem voltado seu foco para a própria noção de representação, seus limites e convenções. Se em Espelho I (2008) tal pulsão é percebida de pronto na discreta assimetria contida na composição especular que conforma esta armadilha óptica, em Escada (2014) o desvio é diverso: aqueles degraus que já não levam a lugar algum parecem integrar-se ao paredão e ter como função desviar. É igualmente no campo da representação que actua Luiz Roque [1979], sobretudo por vias oblíquas. Seu vídeo Geometria descritiva (2012) remete à noção de limite ou limiar das coisas do ponto de vista das instâncias perceptivas, que lhe apraz por à prova. Ao promover o despedaçar de um vidro em slow-motion a uma experiência estética – pelo modo como destaca a condensação do movimento, com o uso do áudio envolvente e ainda a idílica paisagem ao fundo –, segue em sua prática questionadora. O vídeo em loop só acentua o efeito hipnótico da repetição ou circularidade, como também ocorre em seu trabalho Estreito de Bering (2011), uma travessia condenada à incompletude – não se chega ao outro lado.

Finalmente, tem-se no filme O Barqueiro (2008) de Wagner Malta Tavares uma última narrativa, última jornada rumo ao outro lado: ao acompanharmos a enigmática deslocação aquática, seremos deixados sem respostas: para onde vai o barco, qual a natureza exata daquilo que é transportado e cuja esverdeada luz própria permite a visualização dos acontecimentos…E então percebemos que, para além da referência ao mítico Caronte, este barqueiro segue talvez rumo ao desconhecido – o que é também uma maneira de definir a própria prática artística. Fala-se portanto nesta exposição de um outro lado da imagem, podendo assim – por extensão – um outro lado da própria linguagem estar em jogo; se não seu avesso, ao menos um passeio em suas margens. Do outro lado pode estar muita coisa.

 

Guy Amado