Mira Forum
Espaço Mira

A espessura do mundo

 

Deixar desejar

 

Uma das mais poderosas e reveladoras forças que podemos encontrar no lugar do encontro, será a da proposição da visão, o modo como propomos o outro a ver. Poderosa e incongruente magnitude será esta a da visão, interrompida pelo silêncio de quem apenas nos deixa um pequeno gesto, aproximado, potenciado, mistificado. A força reveladora, mede-se no espaço que existe entre nós e o outro, seja qual for esse outro, seja qual o modo sobre o que se apresenta: numa palavra, num objeto, num desvio, numa premissa, num corpo.

A tensão desse preciosismo da visão poderá encontrar-se também na matéria inacessível do ar. Na composição do ar que existe entre dois corpos, na tensão que se processa entre nós e o outro. Na sedução que existe entre nós e o outro. Seja qual for a matriz, o corpo ou o dispositivo desse ser-outro, nunca nos será permitido o acesso de modo integral, e esse sentido fantasmagórico é por isso vital.

Talvez sejam esses os ritmos constituídos neste corpo coletivo. Ritmos transitais, vasculares entre o ar, assinalando uma constelação de vários universos, ora pelos objetos frágeis, virílicos, sensoriais e aproximados de Carla Castiajo; seja pelos volumes processados sobre a matéria do indizível, sinalizados pelas esculturas em cimento de Filipa Fernandes; pela palavra, o sussurrar e a sua omissão na efemeridade da performance e desenho espacializado de Marta Bernardes; na sedução e natureza paisagística do corpo, na imagem flamejante que Joana Machado revela até ao movimento que Ana Deus desvela ao revisitar a pintora nova-iorquina O’Keefe neste seu mais recente trabalho em vídeo. Mais ou menos individualizado, este corpo expositivo é uma pele pluralizada e persistente. Será a espessura dessa pele. A espessura do seu/nosso mundo.

No câmbio entre uma e outra peça, um e outro universo, o espaço da visão é representado com o corpo todo. Vemos com o corpo todo, com a mão, pela mão, vemos pelo olho, pelo negativo e positivo, pelo total e o parcial, pela parte e pelo todo, vemos com tudo. Será na verdade um gesto omisso do corpo, considerando que este é nos quase sempre negado na sua integralidade. Retomamos por isso o sentido sedutor e o mistério do desejo.

Do corpo à paisagem, do volume e espaço ao tempo, do ser uno ao plural. Do ser múltiplo, múltipla, entre formas e formatos, objetos e imagens, leituras e palavras, todos os volumes que modelam o espaço da galeria assentam numa precisão nómada, numa natureza volátil, anti-sistémica, livre. Será esse o repto que premeia este dispositivo coletivo e todos os seus segmentos particulares: uma deriva do ser sobre um desvelamento do criativo. Todas as obras apresentadas são diletantes, belas, frágeis e imersas, desconcertantes, aparentes.

Silenciam-se por uma força ruidosa, afirmam-se por uma presença de peso. São do encanto e de um brilho que nos permite um aproximar despido do mundo. Despem-se, comunicam, vitalizam-se, seduzem-se. Seduzem. São formas criteriosas, fragmentos de criação em estado permanente diante de uma multiplicidade de modos de acção ínfimos que permeiam tantas outras práticas associadas ao ser-criativo destas mulheres.

E ainda mais poderosas por não procurarem a sua (auto) justificação e defesa. Em corpos de desvio formam-se como lufadas. Beleza perturbadora, inquietante, libertadora e sã, a destas formas que não procurando a sua validação, respiram, e permitem-nos atravessar a visão, longe de intentarmos revisitar o nosso próprio ser preocupados com o olho do próximo.

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pele e pêlo,

camada que dista a pele da luz, o pêlo protege interna e externamente. Protege a acção do corpo sobre o próprio e no contacto com outro. Este apêndice ligado à pele, apenas no corpo dos mamíferos, regula, camufla, comunica. O modo povero que ao primeiro golpe podemos associar diante destas peças de Carla Castiajo, rapidamente nos é desvelado por uma delicada e preciosa concretização. Estes cabelos, pêlos, são linhas, curvas, traços e desenho. São cotidianos, próximos. De uma figuração não linear, são matéria de território indemarcáveis, enquanto matéria – o pêlo – são tal qual, novamente, coletivos. Múltiplos, acumulados, em arquivo e memória — tal qual a medida satírica de João Deus e o seu Álbum de pentelhinhos na trilogia de César Monteiro — não menos satírica, estes corpos cuticulares são pubianos e políticos, são livres e irônicos, são do eu ao outro, mais uma vez. E mais uma vez uma face, um fragmento do corpo

ar,

sobre uma casa fechada escorre o cimento, congela-se o passado, impede-se o futuro. Lembra-se. Existe uma outra dimensão da memória diante das esculturas e composições apresentadas por Filipa Fernandes no espaço central da galeria. Enquanto formas de desenho no espaço, corpos de fruição, existindo por si sem qualquer outra matriz associada, revelam ao mesmo tempo a tentativa de concentrar a magnitude do espaço indizível e indemarcável associado ao tempo e ao ar. Volume e pensamento inerentes a estes corpos plenos de uma performatividade reminiscente — associada ao fazer e ao desfazer — balanceada com a estaticidade do cimento, não menos aquoso, não menos mutável do que o próprio vidro e plástico ligado a matriz genética destes objetos

(…) E poderia continuar assim, se não ouvisse um copo a partir se no fundo da casa – alguém que se distraiu, e que rompeu, de súbito, o meu raciocínio. Ao mesmo tempo, porém, descobri que nada do que eu pensava era original, e só ao apanhar do chão os vidros partidos, um brilho breve no seu contacto com a luz me fez pensar que, afinal, a harmonia também nasce da destruição, e o centro da esfera desloca se para o fragmento que seguro com os dedos, antes de deitar para o lixo. Uma espessura do fino ao grosso, do frágil ao resistente, do efêmero ao permanente.

paisagem,

da paisagem ao corpo, num gesto mimético de uma imagem dupla, transposta da parede ao chão, a imagem é aqui lugar de contemplação, paradoxo imagético, beleza desvelada. Entre os contornos orgânicos e sinuosos do corpo num cruzamento abrupto com um lugar polimorfo e abstrato de um lugar indefinido, ao qual somos envoltos, falamos de também de uma imagem redentora. É uma imagem-escuta, num comprimento de onda que ausculta o mundo na sua tridimensionalidade, teto chão, corpo e pé. Seduz, porque o corpo o faz. Seduz porque o corpo é território e paisagem. A estaticidade da imagem de Joana Machado, expande-se, convergindo com a imagem em movimento proposta por Ana Deus. Duas paisagens, constituídas ora na abstração da sua representação ora na velatura do corpo, na linhas das suas formas, na curvatura das suas peles. Paisagens do ser, individual e coletivo

Omissiva,

o conto, a palavra e a poesia. Novamente o ouvido e audição, atenção e a partilha. O singular. O gesto de quem lê, de como quem dá a ver, permitindo o acesso à visão pela leitura. Num dupla camada a presença de Marta Bernardes define-se num duplo tempo. Por um lado apresenta a performance COLO no momento da inauguração e por outro permanece com o desenho expandido na peça/ instalação composta também por luz, Omissiva (2018). Colo sintetiza uma outra cadência ao ritmo da exposição, numa experiência individual, o público para, senta, ouve, introduz-se, permanece, torna-se texto. Sobre o colo da artista, projetam-se as palavras de outras artistas/seres-criativos mulheres: dos híbridos de Maria Gabriela Llansol, à poesia de Luísa Neto Jorge ou de Alda Giuseppina Merini, até aos textos, da também múltipla no fazer e agir, Santa Teresa de Ávila, é permitido ao público a sua condição de legente. A instalação que permanece no espaço, retoma a palavra, a premissa da carta: de novo a atenção, a partilha, o singular, o secreto.

olhar pelo,

movimentos transistais, penetráveis, transpostos. Cruzando a pintura, num desve – lar da sua espessura, uma pintura que é aquosa, uma paisagem que perde a com – posição e o volume de ser natureza para se definhar em contornos e volumes do corpo e pele, Ana Deus revê a obra de Georgia O’Keeffe desvelando os corpos orgânicos e fluidos das paisagens meta-humanas da artista americana, dimension – ando a sua esteticidade enquanto corpos sinuosos, berrantes, amorfos, onde o material vital da natureza se afirma Humano, ou até mesmo o seu inverso. Nesta velatura de movimento as montanhas, montes e vales de Sangre de Cristo ou as áridas paisagens do deserto de chihuahua no Novo México — região acarinhada por O’Keeffe, são cortados com uma leveza sintomática por entre linhas verticais e horizontais, dimensionando a imagem entre o digital e a pintura física. Este cru – zamento de duas pinturas establecido por Ana Deus é sequencialmente penetra – do, assincronamente, com emissões de som, gravações, cantos, que não obstante parecem orientar a cadência dessa mesma penetração. Imagem véu. Aquilo que observamos será também o encontro e revisitação entre duas mulheres, duas artistas, duas criadoras de paisagens, uma pelas palavras, pelo corpo e pela canção, outra mais pela pintura.

Retomando a visão, de um todo, se a cadência se desvirtua, oportuno será sempre o lugar da arte, aquele que deixar desejar, deixar seduzir: o outro deverá — por isso — poder assinar no meu texto.

 

2 DERRIDA, Jacques, FERRARIS, Maurizio – O Gosto do Segredo. 2006, p.48,

op.cit. NEVES, Eduarda em Se o centro existisse não o saberíamos encontrar – Revista Contemporânea 2019.

 

João Terras