Mira Forum
Espaço Mira

EXPLICAÇÃO DO PLÁSTICO de Eduardo Matos

Uma arquitectura de luz e sombra

Pegar então num

Objecto contundente e amaciá-lo com a cor.

Maria Gabriela Llansol, Saber esperar alguém

(in O começo de um livro é precioso, 2003)

 

À semelhança de Os Respigadores e a Respigadora (Les Glaneurs et la Glaneuse, na sua versão original), filme-documentário que Agnès Varda realizou em 2000 sobre a responsabilidade intrínseca de reaproveitar os objectos que as sociedades de consumo contemporâneas votam ao esquecimento das lixeiras situadas no centro e nas periferias das cidades, comprometendo a sua hipotética metamorfose num ciclo biológico mais amplo, Eduardo Matos (nascido no Rio de Janeiro em 1970), convoca nesta Explicação do Plástico uma necessidade umbilical ao desejo da cineasta francesa, isto é, representar a reinvenção das formas a partir dos lugares de onde foram resgatados ao seu abandono.

É através da imagem fixa (projecção de slides) e da escultura que essa mesma transformação é concretizada, formando uma arquitectura que se delineia entre a presença da luz e a evidência da obscuridade. O espaço convocado é Annessens, um bairro que acolhe comunidades emigrantes localizado no coração de Bruxelas (onde Eduardo Matos reside actualmente), reproduzido fisicamente pelas duas placas que o envolvem e visualmente pela maqueta que mostra fotograficamente a sua perspectiva exterior. Inicia-se, deste modo, uma permanente dialéctica: o interior implica aquilo que é externo, a memória transfere-se para o espaço real, o que é visto é simultaneamente imaginado pelo espectador que tanto usufrui do privilégio de se relacionar com os objectos mesmos (pictóricos e sensoriais) quanto de os observar no seu estado mais artesanal. É o espaço dentro e fora do espaço, o gesto de repensar a evolução das malhas urbanas, o puro acto de atribuir uma vida outra à inteligência da matéria. Como um respigador incansável, Eduardo Matos restaura a arquitectura toda. Como esse objecto contundente e pleno de cor que a poesia solar de Gabriela Llansol deixa adivinhar.

 

Pedro Marques Pinto