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Espaço Mira

J. E AS PEDRAS de Cristina Mateus

Na fotografia do quarto, o corpo de uma mulher nua sobre o sofá é a temperatura cromática da folha de papel. Foi em outubro ou novembro, era outono. É possível que tenha marcado encontro com Jimmie Durham nesse quarto de hotel em Istambul, entre o ocidente e o oriente. Foi há vinte anos. Bebia-se whisky e talvez se ouvisse Time is on my side, dos The Rolling Stones. Esteve quase toda a noite calada, mas não foi ela quem primeiro apedrejou o frigorífico e o gelo, nos copos, só derreteu de manhã. Pensou que há umas coisas e outras, que há coisas que são outras coisas, que há corpos, cerejas nas árvores e botões nos casacos. Entre o acontecimento e a memória do que aconteceu abre-se, como um abismo, a ambição de impedir que aconteça o que podia ter acontecido. A origem de toda a violência está na incapacidade de esquecer que basta ter podido acontecer para que já tenha acontecido alguma coisa, de alguma maneira. Eis o que seria um trava-línguas se fosse verbalizado. Mas, se as palavras são a imagem da própria reversibilidade, não dá, ao mesmo tempo, para voltar com a palavra atrás. As coisas importantes são quase-ditas, elas estão na ponta da língua, impertinentes, estalam, ardem como aftas. O resto são diálogos e acidentes. Os cruzamentos já eram lugares perigosos antes da invenção dos automóveis, não só porque muitos viajantes neles se perderam ou viram o Diabo, mas porque aí se dá de cara com a possibilidade de mudar de vida. Os viajantes sabem que nunca se deve olhar para trás quando se atravessa a ponte sobre o Bósforo. Um dia acorda-se com quarenta anos. A história, como a ficção, precisa de antagonistas. Era Margueritte Duras quem devia ter escrito este texto. Nos seus filmes, entre duas paredes, as palavras são o contracampo das imagens. O frente-a-frente numa luta de contrários, nunca totalmente opostos, em que o sim-não parece demasiado lacónico, exíguo: nada de sinónimos nem de antónimos.

No cara-a-cara entre duas paredes, a suspensão do real de que fala Cristina Mateus: a grande pedra abate-se sobre o espaço vazio de onde ninguém pode fugir a ser escravo e senhor de si próprio, gémeo estrangeiro de si mesmo. O inventário infinito das pedras imita a culpa. Dividir por dois a mesma pedra. Há pedras repartidas entre a montanha e o palácio vermelho, pedras de Nevogilde que têm a outra metade em Vila Franca das Naves. Há a antiga voz dos tambores que atravessa os muros e imita, por sua vez, a grande queda. A suspensão acontece no cinema, quando se mergulha numa piscina ou se come uma maçã, numa viagem de avião: é o momento em que percebemos que falhamos e que estamos quase mortos. Tudo sucumbe à lei da gravidade. A pedra atinge o frigorífico. Miguel Ângelo sabia que a escultura é o único meio de despir a pedra, porque a forma não pode ocultar a matéria. Mostrar para esconder, esconder para mostrar. De diferentes maneiras se monta a armadilha onde um dia a presa apanhará o caçador. A maior tentação não é cair na colagem de alusões, é pedir que nos protejam do que desejamos. Nos museus e nas galerias, a mulher está nua e a sua nudez é o segredo da exposição. O erotismo também tem as suas regras e, entre a nudez e a mudez, o striptease é a primeira condição das grandes revelações: “ainda um pouco, e deixareis de me ver; e um pouco mais, e por fim me vereis” (Jo 16, 16-20). As coisas que se dizem ao ouvido podem escrever-se em cartazes. Quem se despe e quer enterrar as roupas usadas, sabe que há uma praia debaixo das pedras da calçada, ou um vulcão. Escrever sobre o que está escrito, correndo o risco de dar erros ou, manifestamente, suspendendo a ortografia e a gramática, encarar o monstro. É preciso matar os professores para fazer a revolução. Sempre às escuras e sem possibilidade de fugir. Depois da última palavra, veio a técnica. Era difícil adormecer Jimmie Durham.

 

António Preto