Mira Forum
Espaço Mira

SE JÁ NÃO FOSSE… de Susana Chiocca

AS MÃOS E OS FRUTOS

Celebro a tecelagem, as mãos sombriamente embebidas no trabalho.

Herberto Helder, Lugar Último (Poemas Completos, 2015)

 

Se já não fosse, exposição individual de Susana Chiocca no Espaço MIRA, é um novelo que se desenvolve em múltiplos tempos indissociáveis, compondo cruza – mentos vários entre a performance, o vídeo, a instalação e a fotografia. Apresenta-se, em termos espaciais, como uma tetralogia que assume, ao longo do seu percurso, um ciclo de transformações através de formas e meios simultaneamente autónomos e dependentes, descrevendo, no seu conjunto, uma narrativa disposta a repensar o nosso eterno presente.

Vemos o lamento por uma Europa devoradora e insensível, cuja luz das suas estrelas falha a sua vocação histórica, deixando apenas para a bandeira portuguesa os ossos sobrantes do grande simpósio que anula a participação dos países periféricos do velho continente, um ritual prenunciador de morte (o malho e o pedaço de pão, metáfora do corpo) encenado na projecção em vídeo, síntese da performance A minha boca ainda guarda a minha língua, que a artista apresentou no Porto em 2015.

Testemunhamos ainda a força surrealizante que impregna o Homem, a natureza e o cosmos discorridos nos filmes Se já não fosse, verso extraído do poema de Luca Argel que confere o título desta exposição, e Bruciferno, texto também assinado pelo poeta brasileiro que reinscreve e reinterpreta na modernidade a figura do sempre intemerato D. Quixote, o nobre cavaleiro lutando contra os gigantes moinhos sobrepostos pelas enormes hélices das ventoinhas eólicas que povoam a cálida planície espanhola de Cuenca, localizada na região de La Mancha, onde Susana Chiocca permaneceu durante dois anos.

A arte fotográfica, origem importante para a actividade performativa da autora, encerra (ou prolonga) as possibilidades estéticas deste conjunto de trabalhos, revelando a sensação táctil das mãos na relação física com o outro, o detalhe verdadeiramente renascentista dos objectos, o contraste entre o claro/escuro, as entranhas dos frutos que dialogam com o gesto de amassar o pão no vídeo inaugu – ral sobre a crise europeia, a essência escultórica das imagens em trânsito, os corpos no silêncio nocturno e os ramos das árvores que imputam uma ontologia orgânica própria ao movimento líquido e híbrido de Se já não fosse. Uma exposição que visa reabilitar a dignidade do poético na frieza apática do político. Ou então a palavra política na simples razão da poesia visual.

Que Europa queremos? Há lugar para os Quixotes no mundo? E os moinhos são ilusões ou pretextos para sonhar? Que futuro se reserva para esta terra portuguesa? A verdade está nos pormenores. Dissequemos, então, o tempo que nos é contemporâneo.

 

Joaquim Pedro Marques Pinto,