Mira Forum
Espaço Mira

O Lugar de Alguém é fundamentalmente O OLHAR

O lugar da pintura

(…)Porque não existe um espaço pictural plano, porque a pintura projecta imediatamente as linhas e figuras no ar, para cá e para lá da tela — uma cor cria logo um volume que sai do fundo branco(…) José Gil, Poderes da Pintura (2015).

A pintura ultrapassa o lugar mesmo da sua concepção. A exposição O lugar de alguém é fundamentalmente o olhar, dedicado às temáticas do enquadramento/reenquadramento, da multiplicidade das perspectivas, da relação entre objecto e espaço e das potencialidades da visão, reúne as obras de Bartolomeu de Gusmão (Lisboa, 1993) e João Gabriel Pereira (Leiria, 1992), ambos em residência artística no MIRA, e do colectivo de artistas e arquitectos Moradavaga, fundado por Manfred Eccli e Pedro Cavaco Leitão em 2006.

Apropriando-se fotográfica ou mnemonicamente do real e dos objectos que compõem o quotidiano, João Gabriel Pereira, valorizando um processo de trabalho e não tanto a sua conclusão ou acabamento, transforma em pintura aquilo que vê e percepciona. Uma natureza-morta, a mesa de um atelier, uma janela ou um quarto ou ainda um corpo (que tem surgido recentemente na pintura de Gabriel Pereira) tornam-se pretextos para a sua reinvenção através da cor e do traço, entre o registo figurativo e abstracto. Uma referência é evidente neste universo pictórico: a obra de Francis Bacon (1909-1992), notada particularmente numa imagem em cujo fundo cinzento se encontra o quadro de um rosto desfigurado e estilhaçado, mas igualmente presente noutros trabalhos pelo estilo de pintura e pela intensa paleta cromática utilizada.

A Bartolomeu de Gusmão interessa a complexa relação entre a palavra e as imagens enquanto signos conciliáveis capazes de fundamentarem a ordem visível e invisível. De desenhos dominados pela racionalidade matemática e pela sobriedade da linha geométrica, passamos à criação de telas nas quais emerge o poder da luz e a resplandecência da tinta, de carácter fauvista, construindo uma panorâmica simultaneamente delirante e exacta. É possível deduzir a influência de Álvaro Lapa no trabalho de ambos estes artistas, sobretudo na estratégia de introdução de texto e na própria estrutura complexa do pintar, no que respeita a constituição de um gesto e de uma forma.

Servindo de intermediário entre a pintura de João Gabriel Pereira e Bartolomeu de Gusmão, a peça apresentada pelo Moradavaga, espécie de grande monólito sulcado por rectângulos preenchidos por espelhos projectando a profundidade, o eu e o outro e a perspectiva aérea, pretende reflectir sobre as várias dimensões permitidas pelo objecto em diálogo com um espaço autónomo, a ideia de alteridade e a função participante que nasce entre a obra e espectador. Porque a pintura é omnipresente e transbordante, transcendendo o plano e o fundo. Olhar é fundamental.

 

Joaquim Pedro M. Pinto (