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Espaço Mira

A MÃO DIREITA NÃO SABE O QUE A ESQUERDA ANDA A FAZER | Ernesto de Sousa (1921-1988)

Uma palavra sobre a fotografia… simultaneamente ponto de chegada e ponto de partida. A fotografia cruzou todo o percurso multidisciplinar de Ernesto de Sousa, funcionando simultaneamente enquanto documento e pensamento, sem definição de fronteiras entre o registo das experiências de outros e os objetos artísticos que compuseram a sua bio-bibliografia. Os materiais fotográficos desta exposição demonstram o seu interesse pela escultura portuguesa de expressão popular, durante toda a década de sessenta (com os primeiros artigos publicados na revista Seara Nova entre Março de 1959 e Agosto de 1961). Sem prejuízo da especificidade das esculturas de expressão popular, evidenciamos o uso da fotografia enquanto ferramenta e expressão do seu pensamento, através de três assemblagens de meios e objectos: a realização de um filme, a curadoria de uma exposição e a edição de um livro. Esta análise confronta o olhar do autor com o objecto (referente) fotográfico e com os meios de produção e edição da imagem fotográfica, num exercício que revela a intimidade do trabalho de Ernesto de Sousa, tanto na aproximação às temáticas de estudo como nas condições técnicas e materiais com que operava, testemunhando a complexidade e experimentalismo do seu universo visual.

Encontram-se em exposição as fotografias quimicamente manipuladas da rodagem do filme Dom Roberto (1962), as fotografias da exposição Barristas e Imaginários: quatro artistas portugueses do Norte organizada na galeria da livraria Divulgação (Lisboa, 1964), fotografias publicadas no álbum Para o Estudo da Escultura Portuguesa (Porto: ECMA, 1965) e material ainda inédito do levantamento sobre a Escultura Portuguesa de expressão popular, histórica e atual, que Ernesto de Sousa compilou durante os anos em que foi bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian (1966-68).

Tendo por objectivo uma futura amostragem de todo o levantamento fotográfico realizado por Ernesto de Sousa acerca da Escultura Portuguesa de expressão popular, histórica e atual (1959-1968), pretende-se que a itinerância desta exposição permita o faseamento deste estudo pelas diversas regiões do país. Depois de uma primeira abordagem que incidiu sobre as oficinas de arte de expressão popular do Minho, expõe-se agora uma seleção de fotografias do grande Porto. Para além de uma série fotográfica sobre António Dias (c.1958), o bonecreiro que fez de duplo de Raul Solnado no filme Dom Roberto e da documentação dos barristas de Barcelos – Rosa Ramalho, Domingos Gonçalves Lima (Mistério) e Rosa Faria da Rocha (Rosa Côta) –, dos canteiros de Ponte de Lima e de Esposende – António de Araújo (Periquito), João Manuel Pires Trigo, Quintino Vilas Boas Neto e António Vilas Boas Neto –, do trabalho sobre madeira de Franklin Vilas Boas Neto e dos santeiros de S. Mamede – oficina José Ferreira Thedim e oficina Adelino de Moreira Vinhas –, esta exposição traz agora a público cerca de 60 fotografias inéditas do Porto.

Ao registo fotográfico de Ernesto de Sousa pelo Porto, agrega-se ainda um relatório da PIDE que informa sobre a apresentação do filme Dom Roberto no Clube dos Fenianos Portuenses (13 de Janeiro de 1964), a projeção do álbum Para o Estudo da Escultura Portuguesa (editado no Porto pela ECMA, 1965), documentação sobre o Curso de Cinema Experimental que programou com o Cineclube do Porto e documentação sobre as peças de teatro que encenou para o Teatro Experimental do Porto durante os anos sessenta: Desperta e Canta de Clifford Odets (Dezembro de 1965) e o Gêbo e a Sombra de Raul Brandão (Fevereiro de 1966).

Dando expressão à importância que as artes gráficas tiveram na obra de Ernesto de Sousa, a Oficina Arara produziu uma série de cartazes que cruzam o levantamento de linguagem popular realizado para o filme Dom Roberto (em projeção) e o arquivo fotográfico sobre arte de expressão popular, aqui parcialmente presente. Armando Santiago enviou as partituras do filme Dom Roberto, contribuindo, juntamente com as vozes de atores como Glicínia Quartin e Raul Solnado (João Barbelas), para o corpo sonoro desta exposição. Os músicos José Carlos Tinoco e Jorge Queijo, apresentam uma performance inédita com Isabel Barros, que foi convidada a intervir com a variada documentação gerada por Ernesto de Sousa em torno do universo do bonecreiro António Dias. A reapresentação do trabalho multidisciplinar de Ernesto de Sousa continua a sentir-se necessária e é reiterada pela contínua investigação académica e curatorial, assim como pela expandida curiosidade artística gerada por novas gerações em torno da sua actividade crítica e autoral.

 

Paula Pinto