Mira Forum
Espaço Mira

Mapa Natal de Cristina Regadas

 

 

Esta é a quarta exposição individual este ano. A primeira foi em Guimarães no espaço do Max Fernandes, O Sol Aceita a Pele Para FicarFrame of Reference (Campo Contra-campo) de seguida em S. João da Madeira nos Paços da Cultura – Manual; em Setembro na Patch Lifestyle Concep Store – Nuvens Passageiras e agora Mapa Natal no Espaço MIRA. As duas últimas estarão patentes em simultâneo na cidade do Porto.

Há muitos pontos em comum nestas exposições. É o resultado de vários anos de trabalho, que inicia ainda enquanto estudante na Faculdade de Belas Artes do Porto. A área artística dominante é a fotografia, contudo podemos ver a prática fotográfica, a relação com a imagem fotográfica nas várias composições com objectos, alguns deles realizados noutras áreas como a pintura, o vídeo, instalação, apropriação de imagens e diferentes objectos. O exercício da fotografia começa em criança, tempo do fascínio pelas câmaras, do fácil acesso aos materiais trazidos pelo pai que trabalhava na Kodak.

Estando ligada às exposições anteriores, sobretudo à que está patente no Patch Lifestyle Concept Store, ambas convocam o mar, a geologia e pensamentos de alguma forma marejados. Podemos dizer que a memória está presente quer seja nas imagens fotográficas, que são evidentes, quer seja pelos objectos que são convocados. Temos pequenas esculturas, vasos e potes, pinturas da mãe e também plantas, elementos da natureza, o herbário. O território dos sentimentos ou das emoções, está aqui presente. A ideia de tempo é também determinante. Na exposição patente na Patch o mar está inscrito, não propriamente pela sua representação, mas através das pedras, dos seixos, das pinturas monocromáticas e muitas das imagens fotográficas que nos devolvem quase um passado mas que é um aqui e agora.

O universo familiar é verdadeiramente importante porque todos os objectos partem daí. Uma revisitação a essas imagens que levam aos lugares que foram a sua origem – e estamos a falar sempre de um lugar que é a praia onde o mar encontra o que é o lugar que habitamos – a terra. É precisamente essa a primeira experiência desta exposição.

Por um lado temos a fotografia e o que ela nos devolve. Ela captura um momento, um presente mas é também o passado e prolonga-o. O vídeo também permite rememorar, constitui um momento que ao ser vivenciado, experienciado no tempo, parece que convoca ainda mais o presente.

Quando vemos a superfície da água e a energia dessa superfície vemos algumas rochas nesse mar, é o pouco que é visível, mas sabemos que há muito mais abaixo, há a ideia de profundidade. Essa profundidade também se pode relacionar com os sentimentos, com as emoções, com tudo ainda que é só revelado momentaneamente e que o mar permite de alguma forma. Estas são imagens metafóricas – a maré, ao baixar, permite-nos ver toda uma paisagem interior pela primeira vez.

Temos o dourado e não o azul de adoração e de contemplação que normalmente vemos no mar. É como se revelasse o que é mais profundo. O que tem sido mantido nessa profundidade durante longos períodos de tempo, só momentaneamente é revelado, exposto por aquele que visita, só por aquele que avança nesse mar.

Onde tudo é essencial e não diz nada do que de facto diz, in Onde vais, Drama-Poesia? de Maria Gabriela Llansol

 

Excerto de uma conversa maior entre a artista Cristina Regadas e o curador José Maia.