Mira Forum
Espaço Mira

MIRA TÉCNICA de Mafalda Santos e Manuel Mesquita

 

Da cosmogonia das imagens

Toda a obra de arte foi sempre encontro e revelação Eduardo Lourenço, Caderno de Apontamentos (Da Pintura, 2017)

 

No início era a imagem como tentativa absoluta de projectar o divino e alcançar a auto-consciência. Sabemos que a história, num sentido amplo, se define na relação essencial entre o homem e a técnica como elementos incontornáveis da própria metamorfose permanente da natureza. Espírito e matéria não se dissociam da mesma maneira que a palavra sagrada dos Evangelhos é capaz de «encarnar» o destino todo da experiência humana.

Os rituais mágicos inscritos na gruta de Lascaux dialogam eternamente com as trágicas figuras da Guernica, de Picasso, a invenção do cinema concretiza o sonho mesmo que ficou adormecido numa escultura grega arcaica. A nossa noção de tempo nada é comparada com a evolução cíclica das formas. De alguma maneira, o digital vive já na Pré-história da nossa condição, no interior sensível dos deuses que esculpimos na épica época dos dilúvios.

É este exercício de rememoração que a exposição Mira Técnica, criada por Mafalda Santos e Manuel Mesquita nos propõe, uma genealogia de imagens que invocam a pintura, o vídeo, a fotografia e o cinema para repensar a nossa relação dialéctica com as categorias do arcaico e do moderno, do analógico e do virtual, do primitivo e do tecnológico.

O loop do compasso de espera lembra o ícone de um sol que tanto ilumina o movimento das imagens como, nas sociedades antigas, era objecto de culto religioso e sinónimo de vida para as comunidades agrárias. Veja-se ainda a tela em que corre uma imagem a preto e branco, memória do fim das transmissões televisivas ou do negativo fotográfico, transição entre o abstracto e o figurativo para nos «revelar», à semelhança do texto bíblico, uma imanência autónoma apenas acessível à virtude da interpretação.

Ou ainda a sensação de profundidade espacial em que as imagens aparecem e se dissolvem nas suas múltiplas extensões nessa hipnótica espiral que permite a eterna circulação de uma geometria cujo demiurgo conhecemos através da potência redentora da imaginação. O mesmo é dizer: da vasta compreensão que esta cosmogonia de imagens mostra e oculta à sombra da sua luz aparente.

 

Joaquim Pedro Marques Pinto