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MY OWN MOON de António Olaio

É uma obra que se agita nas fissuras do ser frenético e do ser calmo, na verdade, na fissura de tantos outros seres que foi constituindo ao longo do seu percurso, enquanto pintor, performer, poeta e músico. Uma consciência da ética e da ambiguidade, não existindo tempo nem espaço na sua obra. E é nessa a-geografia cosmológica que Olaio constrói um trabalho repetidamente de “hoje”, num hoje desmedido, por representar e por se estabelecer.

A Arte não abre nem fecha, a criação artística em que Olaio se apoia é imbuída dessa assincronia da Arte, dessa mescla entre razão e devaneio, entre lógica e coesão, entre os meandros da língua e da linguagem, sendo que a Arte é e será, à linguagem, o que sempre lhe faltará. Num longo percurso de vida, nos golpes intercalares e unificadores de poeta, músico, performer, pintor e professor, a obra de Olaio é a prova de uma lucidez que desmistifica os equívocos e os paradoxos da complexa teia da criação artística.

Neste equívoco, por fim, pronuncia-se, sempre, o pressuposto da existência. De forma clara e límpida, existir, tanto da parte de quem a faz como de quem a vê (nas palavras do artista).

Talvez seja esse o sítio da arte, esse que Popper um dia exclamou, – where angels fear to tread (1) – onde os anjos temem pisar -. Na vida – como um bálsamo, que não consola se não pela ideia de que é um bálsamo. (2)

João Terras

(1) Alexander Pope em An Essay on Critcism (1711)

(2) Álvaro de Campos em Passagem das Horas (1916) – Livro de Versos – Fernando Pessoa