Mira Forum
Espaço Mira

ONDE NASCE A LIBERDADE | 25 DE ABRIL E 1 DE MAIO NO MIRA

onde nasce a liberdade

 

Extensão de um modo de convocar e difundir Abril Da galeria ao pátio, do digital à rádio

Uma das mais belas frases inscritas nas paredes de Paris, em 1968, gravou-se já no final do período revolucionário de Maio. Com a cidade já morna e bêbada, descalça e a fumear, lia-se entre os carros e a parede. Sous les pavés, la plage! – Por debaixo das pedras da calçada, a praia!. O que mais nos aquece no Maio de 1968 é ainda hoje sabermos que debaixo do chão que pisamos, debaixo daqueles paralelos que barricaram as ruas e que foram arremessados às tropas, está esse areal do inexplicável, essa terra virgem e selvagem, esse mundo indomável e livre, incolonizável, sem império, permeável, apolítico, associal, sociável, incansável, infindável.

Sous les pavés, la plage!, o mar e a areia, o horizonte

Aquilo que mais nos agita no Maio de 68, assim como, noutra direção, energiza Abril de 74 é o sentimento vertiginoso da revolução. A revolução não nos entrega a solução, não nos oferece o compêndio ao capital, nem a ordem para a lei, não nos catequiza nem direciona para o binómio da correção, a revolução é vertiginosa, é marginal, é mundana.

Para o homem imperioso e conquistador uma calçada descoberta é como um corpo nu na praça, é como um vulcão em erupção, é o indomável, o desviante, o descontrolo que o despolariza. Os romanos sempre tiveram mais medo do Vesúvio do que de Cartago, os gregos mais fantasmas com o Mediterrâneo do que com os Persas. O que tira ao humano o poder do humano é a falência das suas mãos com a areia a correr-lhes entre os dedos. Não existe maior revolução do que a revolução permanente dos corpos e da natureza.

E isto convoca-se no MIRA em mais uma celebração de Abril pois, além do sentido plural e comunitário de memorar Abril, todo o momento de revolução do princípio do fim de um tempo imperial e colonizador, estimula-nos sempre a perceber como podem, no presente os corpos existirem em revolução, vertiginosamente indomáveis, submetidos a esse chão de areia. Memora-se, sendo-se.

Em 2021, o MIRA dilui o corpo de exposição aos sacrilégios dos meios e espaços de leitura e apresentação. Como num tempo de clandestinidade, socorremo-nos do sussurro e do ouvido, comunicamos pelos lugares do calabouço, difundimos como cópias, estendemos ao encriptado, acedemos ao proibido, até ao ponto em que a forma se dilui num tempo maior que o tempo, num espaço maior que o espaço, plural e intratável. Da galeria ao pátio, da rádio ao digital, aquilo que damos a ver torna-se poroso, periférico, líquido.

Abrimos a galeria com os corpos líquidos de Dylan Silva, cuja prática nos tem habituado a um olhar continuado do corpo aos corpos, retratos plurais, de para quem o desenho é o gesto matricial da visão e do tato. Expandido o pequeno formato, os corpos ilustrados nas folhas e cadernos, esculpem agora na parede da galeria como películas de um desenho maior mas que ainda é desenho, ainda da escala da mão. Qualquer corpo desenhado é por isso indomável.

Face aos corpos de Dylan, erguem-se as esculturas de Vitor Israel, fálicas e agrestes. Armas e armadas, convoca-nos à origem da guerra como Coubert pintou a origem do mundo. Essa prepotência heroica das formas, ainda que sejam testemunhos de uma virilidade neoplástica e abstrata, a possante figuração que lhes possamos adivinhar é encadeada de uma delirante ironia flácida. Encandeamento falível, tal qual o que Jorge Lourenço apresenta ao projetar uma escultura-instalação que, convocando as especulações dos modos vernaculares de agir sobre a arquitetura e território, não conseguem atingir o seu fim. O muro de vidros em degradé cromático é um símbolo do que é ser um muro num território que se quer de vizinhança.

Ao centro do espaço, um duplo de projeções, Brio de Vinícius Ferreira e Margarida Tengarrinha de Max Fernandes. Da ficção ao comentário, o realismo tem paredes leves e Brio traz-nos o caçador pela presa, numa captura de imagem em contínuo, de um corpo algemado numa sala fechada onde domínio e controlo permanecem como mantra de uma condição impossível. Do outro lado do véu, trinta e dois minutos de Margarida Tengarrinha ou mesmo que 92 anos de militância, ativismo, mulher e corpo em velocidade pela sombra e fuga. Professora, artista, política e revolucionária, desde os anos de 1950 ao lado dos movimentos do Partido Comunista Português, e de livre e independente pensamento, encontrou na cópia, na imagem, na edição e na produção de conteúdos gráficos, a difusão de um pensamento em resistência, precioso e poético sentido revolucionário este da clandestinidade da verdade.

Entre o centro da galeria e a flora do pátio, situam-se dois olhares microscópicos numa abstração das formas para acedermos à falência do tempo e do real. Em três acidentes, ecrã, parede e online, Aida Castro e Maria Mire, como dupla, perseguem uma visão estereoscópica, em diferentes tempos, lenta e aproximada de um vulcão em erupção

Ligação entre micro e macro escala, tornando a catarse monumental em algo da espessura da derme, tornando a natureza em corpos, a explosão em fluidos, a natureza como corpos, ligados.

Num mesmo espetro, só que sobre uma outra espessura da imagem à luz e, por isso em movimento, instala-se Azimute do Colectivo Lab.25, uma escultura-película em binómio luz-tela, que surge a partir de um arquivo de slides encontrados na antiga fábrica Fogões Meireles na zona do Bonfim. O tempo da cidade e a falência do território são convocados pela casualidade irónica, aleatória de um arquivo encontrado no interior ruinoso da antiga fábrica. Imagens em slide de diferentes tipologias diluem-se pela microbiótica do tempo, e o coletivo expandiu as imagens à potência nefasta dessa degradação, ampliando duas delas possibilitando, assim, pela abstração, o sentido de representarmos e olharmos um território através da ficção e idílica realidade das imagens.

No Banquete de Platão era o amor, no de Duda Affonso também, mesmo que esteja entregue ao tempo. Com esta natureza morta composta por fruta-feia recolhida em Miraflor e arredores, a artista sintetiza as linhas de tempo, memória, durabilidade e passado pelas quais caminhamos anteriormente aumentado a sua escala ao tempo do orgânico e do vital. O Banquete é este, e pensar no alimento aqui é também pensar no sentido do sentar à mesa, do beber, de quem serve, de quem come. O tempo é o da fruta.

Ainda no exterior, temos acesso ao som que se expande ao corpo da rádio, ao imaterial e invisível, é como continuar a murmurar ao ouvido de um amigo, é como ainda comunicar no incontrolável espaço do ar, aquele que ainda não conquistamos mas que tentaremos erguer a tempo de o colonizar. Desde pelo menos o início do século passado, foi pela rádio que fugimos, indescritível e encriptada e indecifrável história do ar e da rádio, da matéria do intocável, do escapável. José Oliveira, Felícia Teixeira e João Brojo, Ana Deus (poema de Regina Guimarães), Susana Chiocca e Paulo Ansiães Monteiro, difundem.

 

João Terras