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Espaço Mira

“no osso” de Pedro Ruiz

no osso, revela o habitat de Pedro Ruiz na relação sináptica entre a vida e a arte. Ainda que tudo isto seja desenho, e seja mão, e sejamos nós. Estas esculturas-objetos-instalações são essa prática global onde já não encontramos separação entre o ver e o fazer. Tudo é criado a partir de um processo de recolha e assimilação, formando figuras e formas, lugares e realidades outras, transformando a energia da matéria em matéria de energia, tal qual assistimos nos objetos mais sagrados ou nos mais profanos. O corpo de obra que encontramos nesta exposição-instalação, compõem aquilo que é inseparável, aquilo que víamos à lareira na sua casa, na mesa e no móvel onde ainda lê, no jardim, no seu e no nosso.

Possa embora o fantasma da precariedade assombrar a nossa visão escatológica do fim dos tempos, o precário na obra de Ruiz não grita nos poros dessa luta, afirma porém, mesmo que atento e sabido do nosso tempo e da filosofia que o alimenta, que a vulnerabilidade das formas e matérias são, antes de tudo, prova da fina membrana de que somos feitos em carne e osso.

Por isso, são os seus objetos unidos, assemblados desenhos e esculturas a partir do mundo que nos rodeia, de uma poética assombrosamente bela e trágica. Pedro Ruiz pertence a essa rara herança de artista, onde o ecossistema de vida e arte não se separa, abrindo portas ao mais íntimo dos segredos da criação. A verdade crua do gesto, o primitivo, o primário, o intuitivo e, por isso, o vital.

Ainda que a semelhança e a referência o invadam pela reação e ação daqueles a quem sempre se espelhou – artistas, poetas, transeuntes – aqueles que olharam o mundo sem reservas reconstruindo a paisagem, colhendo as pedras, alimentando a criação pelo magnetismo das mãos, pela compulsão dos corpos, aqueles que continuaram a colher não só o mundo que os rodeia, mas a vida é que tudo mais e infinita. Frágil escassez esta, que alimenta a forma como Ruiz, afinal, nos reconstitui o mundo e nos permite o ver de novo, de forma sedutora e penetrável, como se o mundo fosse insaciável

Assim o era nos pendores e na loucura do Bispo do Rosário, como o era nas composições e esculturas modeladas por Franz West à margem da história, assim o é nas canhotas e rizomas que o Franklin Vilas Boas roubava à praia, assim o é na vida num parangolé, assim o são. Olhando a bola de espelhos a girar, podíamos ouvir Emma Goldam, “se não puder dançar, não é minha revolução”, e transitamos neste fim de festa, entre a natureza e a urbanidade, a cadência e a falência, a dança e o ritual. Assim como o é na vida e arte de Jimmie Durham,  “Cadeiras que não têm uma das pernas eu acrescento-lhes um osso…” 1 . A prática de Pedro Ruiz fala-nos nessa sombra da história da arte, no mesmo gesto matricial e marginal de todos onde encontramos este fazer. É este modo de fazer, a fábula, de para sempre estarmos conectados intimamente com tudo aquilo que nos envolve e insaciados por queremos o sabor do ainda mais.

 

João Terras

 

1 O artista na boca do leão: conversa com Jimmie Durham, Revista Contemporânea 06.07.2019