Mira Forum
Espaço Mira

Offside Paradiso de José Oliveira

Desde há muito tempo que o José Oliveira nos tem receado com o éden de uma arte por vir, constituindo fluxos outros para o sentido da criação e receção da matéria criada. Revirando o ecrã das imagens, dirigindo num mesmo sentido aquele que vê e o que dá a ver, procurando o contrapeso e a moeda de troca para as valências fortuitas deste mundo, ironizando, possibilitando, oferecendo, o artista têm esticado a sua ação até circunscrever de forma ampla a sua prática, numa deriva onde quase sempre o real habita de forma plena e não menos cruel sobre nós.

Quase sempre, habitar os seus lugares se torna numa ode ao vão sentido de nos questionarmos, tão vitalmente, para onde corremos e porque criamos.

Entre disciplinas, porque são ainda estas as únicas matérias possíveis ao artista para a construção de uma deriva do real, Offside Paradiso torna-se no novo lugar manejável criado no centro das especulações de José Oliveira. Lugar desviante, de novo o outro, a troca, a mão e a boca, o aprender e o fazer, o aprender e o olhar, o dar a ver e o trocar. Não será de mais insistir neste sentido binário da frase que projeta esse ver duplo de criar ao lado de.

Na obra de José Oliveira tudo se produz dessa reverberação do outro, numa projeção comunitária do seu olhar e que se plasma no centro desta instalação que nos acolhe.

Poderíamos sentir que o eco de tudo o que nos circunda se encontra sobre a natureza arrítmica destes videogramas montados em plano de cinema.

À mão de ver, o que observamos no ecrã são os dias da sua própria mãe. Tempo e espaço para assistirmos às derivas, aos caminhos, avanços e recuos, procuras e concretizações de uma prática que se demonstra agnóstica aos pilares estruturais de um rumo liberal. À mão de ver, percebemos que é desse eco a reverberação deste lugar. Pelas relações melódicas que podemos tecer com o som-habitat – de tantos nomes – junto da escultura tecido de Svenja Tiger nas suas costas e que veremos receber o tratamento de corpo por parte da própria mãe. À mão de ver pelas relações diletantes do jogo ao fundo, no tabuleiro que leva o futebol à mesa e que recebe as mãos da mãe.

No futebol de mesa, assim como na massagem, tal como na leitura visual dos jornais de trabalho ao centro ou na biblioteca da A Leste que pausa por ler, estamos perante a figura diletante do humano, aqui sujeito a perceber porque para, porque joga, porque ali entra, porque ali vê. Tal como as mãos adormecidas e os movimentos esfingídeos das estatuetas dos matraquilhos, que representam um falso movimento de uma ação in loco. Já mais existirá aqui o incumprimento dessa maior lei de polémica do futebol. Estar fora do jogo, como fora do tempo. Complexas regras de arbitrar, estar fora de, implicando um espaço dentro e alguém que o defina. O éden de um lugar dessa natureza talvez seja o deste, o de não conseguirmos encontrar o sentido arbitral para nos obrigar a.

O corpo está sempre em jogo, dependente do jogador-espectador e espetáculo, aqui o que observa e joga, numa retórica de investimento que reverte o sentido econométrico da partida. You’ll allways walk alone num sentido coletivo em declínio vertiginoso.

Estes espaços cambiais entre criação e real são ainda o lugar que diligentemente José Oliveira afirma como o lugar da arte. Centro de gravitação genuinamente real subtilmente camuflado por uma ficção escancaradamente habitável. Em vã memória, que a palavra não se esgota, ainda estamos nesta instalação de espera, fazendo do tempo de permanência o tempo que por cá nos valerá de troca.

 

João Terras