Mira Forum
Espaço Mira

Os Dias da Independência de Alfredo Cunha

 

Independência para Moçambique

«Let my people go»
— oh deixa passar o meu povo,
deixa passar o meu povo —,
dizem.
Noémia de Sousa, Let my people go (Sangue Negro, 2001)

Como se inventa a liberdade, como se sonha um povo, como se conquista a soberania? A presente exposição individual de Alfredo Cunha pretende comemorar os 40 anos da independência completa de Moçambique, proclamada a 25 de Junho de 1975, através do acordo de Lusaca celebrado entre o Estado português e a FRELIMO liderada pelo presidente Samora Machel. Dividida em três momentos, entre a própria independência, a guerra civil e o consequente estabelecimento da paz (1975-1993), as fotografias a preto e branco de Alfredo Cunha revelam o tempo da descolonização, os ventos da utopia, as promessas da revolução, a vida e a morte, as armas e o poder, o sangue e o fogo, o nascimento de uma nação. Do fim do Império representado nos caixotes empilhados junto ao Padrão dos Descobrimentos (um regresso a casa, o epílogo de uma epopeia imaginada debaixo de um céu tumultuoso) aos retornados de rosto quase expressionista a dormir sem destino no aeroporto em Lisboa, das cerimónias políticas mais formais e solenes (nas quais estavam presentes normalmente Machel, Marcelino dos Santos e Joaquim Chissano em conversações com Mário Soares, Otelo Saraiva de Carvalho e Vasco Gonçalves ou líderes africanos como Agostinho Neto, Robert Mugabe e Julius Nyerere), à nudez dos corpos a lavarem esmeradamente as fardas no rio ou os feridos e estropiados que transportam a dignidade última de um sorriso, da doçura das crianças a subverter os conflitos fratricidas (o cão da fogueira será um ícone) até ao incauto soldado que partilha com o fotógrafo um momento de vaidade, Alfredo Cunha, então com 20 anos, testemunha uma viagem desde o Rovuma e a fronteira com a Tanzânia até à antiga Lourenço Marques e a Beira, escreve com a força das imagens jornalísticas uma crónica sobre a transição, as contradições humanas, o sofrimento e a felicidade, a dureza e o pormenor dos gestos, a inclemente guerra devastando a terra e matando irmãos. E mesmo assim há ainda uma palavra: liberdade. Da sua compreensão dependerá a confraternização ou o ódio. A ínfima realidade, a derradeira verdade que habita a metralhadora e os prisioneiros como a placidez e a bondade dos inocentes civis que olham a câmara com generosidade rara. Deixa passar o meu povo.

 

Joaquim P. Marques Pinto