Mira Forum
Espaço Mira

Passar o tempo de José Almeida Pereira

 

Esta exposição dá continuidade a uma série de obras que tenho vindo a desenvolver desde 2010 que se caracteriza por uma apropriação de imagens fotográficas de pinturas mais ou menos clássicas. Contudo, a apropriação era uma prática que esteve sempre presente no meu trabalho. Diferentes áreas artísticas têm sido convocadas, de uma forma directa ou indirecta. No início trabalhei o vídeo, a pintura, o som, o mural, por vezes tudo numa só obra ou autonomamente. Aqui domina a pintura, mas fazendo coabitar com essa pintura a fotografia, mais propriamente o trabalho da edição digital e também o vídeo e a instalação.

Em 2010 aquando da exposição no antigo Espaço Campanhã deu-se o momento charneira em que essas apropriações, ou as imagens que me têm servido de referente, declaradamente se ligaram às imagens da história da pintura; isso começou com O Rapto da Europa do Rubens. Andava interessado nas representações da Europa, na componente etimológica da própria palavra, e o conceito serviu-me para ir ao encontro de algumas imagens. A principal foi este quadro de Rubens, que a seguir descobri ser uma cópia muito aproximada de uma pintura do Ticiano com o mesmo nome. O Rubens fez muitas cópias e algumas cópias pareciam mais vibrantes que os originais. A partir desse momento pensei sobre o modo de utilizar esses referentes, pensei que não os poderia encarar de frente, tinha de os distorcer de alguma maneira, tinha de variar o meu ponto de vista, e foi assim que eu comecei a criar as anamorfoses, torcendo e esticando. Encontrei grande parte das imagens na internet com uma qualidade impressionante, são fotografias de profissionais que as fotografam rigorosamente. É claro que dá para pensar sobre aquelas cores. Como é que a pintura foi iluminada? Qual é a aproximação ao objecto real? Que transformações sofreu até atingir ficheiro que descarreguei da web? Tudo isso para mim tem importância, condiciona o modo como a imagem chega ao observador. Na verdade os artistas sempre viveram de reproduções, livres de introduzir a sua própria leitura. A aproximação das cópias do Rubens aos originais é grande, mas a verdade é que há uma quantidade imensa de escolhas que acontecem: substituir umas figuras por outras, camuflar alguns pormenores, a expressão do modo de pintar, etc. Quando nos aproximamos do quadro há uma grande diferença, mas é impossível fazer uma cópia exacta de qualquer coisa, há uma grande margem de manobra aí. A impossibilidade de uma cópia exacta possibilita muitas escolhas, interessa-me isto.

A exposição sublinha que vivemos, relativamente às imagens e à história das imagens, com a experiência da reprodução das imagens, da interpretação do fotógrafo, ou do cinema. São poucos os momentos em que temos contacto com a obra primeira, por vezes esse contacto é tão breve que não a percepcionamos. Muitas vezes vemos a reprodução como sendo a experiência da própria obra.

Nesta exposição, tendo por referência os temas mais clássicos da arte, temos a vánitas, a natureza morta, o retrato, uma cena do quotidiano (que se estende até ao tema da paisagem) e que de alguma forma é convocada no vídeo. Essa consciência da imagem ser múltipla (como múltiplos são os temas), o que as une é a interpretação efectuada a cada uma das imagens. Isto passa por uma técnica da preparação da imagem e da gama cromática escolhida, que interfere e exige do observador. É introduzido um ruído relativamente ao original, contudo a primeira imagem, que seria a imagem fotográfica, já homogeniza algo relativamente à pintura, não capta a pincelada e a junção das múltiplas cores do mesmo modo que a superfície pictórica se apresenta. O que aqui temos é que a imagem pictórica passa para uma imagem fotográfica, vai para um momento de edição digital e volta a encontrar-se verdadeiramente distanciada da primeira que é também pictórica. São camadas até chegarmos à obra final. Há um caminho trilhado que nos desvia do momento do referente que serviu de modelo.

Estamos perante estas imagens que são verdadeiramente pictóricas, a prática e a consciência dessa pintura está muito presente, no entanto o referente não é um modelo físico, mas uma imagem digital que introduz aqui uma nova experiência, isso permite uma nova composição e novas leituras são adicionadas às primeiras leituras que permitem múltiplos ou diferentes níveis. Estas obras convocam temas verdadeiramente diferentes: a questão da morte, da vida, do próprio trabalho artístico, quer seja no desenho quer seja na escrita ou a consciência desse mesmo pintar, a ideia de leitura da obra está ali, quer seja a leitura de um texto ou até o contacto impressivo ou expressivo num diálogo entre pessoas, faz com que o que esteja a ser falado ou dito ou exposto possa ser percebido de forma diferente, porque o estado emocional é diferente também. Esta exposição permite-nos uma explosão de leituras. Para tornar ainda mais denso tudo isto, há a criação de um padrão, de um mural, que colocando os quadros sobre esse mural, sobre os módulos desse padrão, introduzem novas relações, criam novas linhas de tensão ou ajudam-nos a expandir. A gama cromática das pinturas parece que dialoga com a do padrão.

Sempre que vou expor tento não pensar para além das imagens que carrego comigo, as pinturas, os quadros. Tenho sempre uma vontade de abraçar espaços. A partir da pintura, o padrão ajuda a criar um efeito óptico, e isso é que me atrai – são os efeitos ópticos. E noutros trabalhos com padrões passou por outras coisas mais, mas tenho conservado a vontade de imergir o espectador, imergir o olhar como as pinturas que tenho vindo a fazer, que o espaço abrace, gosto de ser generoso nas visualidades, nos estímulos à retina.

 

Excerto de uma conversa maior entre o artista José Almeida Pereira e o curador José Maia