Mira Forum
Espaço Mira

(POST) ARQUITECTURAL VOICES

(POST) ARCHITECTURAL VOICES

Um estaleiro encerrado não é percebido como obra. Um conjunto de máquinas industriais desactivadas estão envoltas em plástico negro e aguardam pela abertura de um museu. Um grupo de arquitectos entra e cria novos espaços, sem qualquer reconstrução, trazendo performativamente novas formas, narrativas e vozes às ruínas por onde passam. É assim que o colectivo Os Espacialistas vem desenvolvendo estratégias de observação, intervenção e de registo dos espaços que ocupam e transformam de modo efémero com a presença dos seus corpos estilizados.

Explorando um léxico codificado e próprio – os exercícios ginásticos de espaço, os esquiços fotográficos, o kit espacialista, o aparelho reprodutor artístico – constroem um conjunto de ferramentas e técnicas com as quais trabalham tridimensionalmente para a câmara fotográfica. Interessa compreender as suas tácticas e o modo como vêm transformando estes espaços: a sucessão de planos, a profundidade de campo, a composição geométrica, a ambiguidade de escala, são algumas das suas técnicas de composição espacial.

A efemeridade das imagens de Os Espacialistas, tem sido escrita, e inscrita, numa colaboração criativa próxima de Gonçalo M. Tavares – o escritor cria literariamente sobre as suas criações visuais, expandindo pela palavra e a linguagem as espacializações dos seus corpos e gestos. A continua translação dos espaços que esquiçam e transportam em imagens fotográficas e a sua posterior anamorfose em palavra, tornam os seus espaços, imagens e vozes, dissonantemente, pós-arquitectónicos.

No projecto das Fábricas da Levada de Tomar, Os Espacialistas auscultam os espaços, os objectos e a luz, descobrindo os sons que o atravessam. Na série de imagens expostas no Espaço MIRA, encontramos um “grito” mudo que perfura o edifício nos seus diversos pisos e o interliga. Que som é este, que voz é esta? Uma estratégia para fazer ressoar os sons do passado, das máquinas, do trabalho? A expressão de cansaço dos corpos saturados que continuam a experimentar novas composições? O que nos diz esta voz? De algum modo, a fotografia torna-se curta e o som entra nestas imagens, expondo a corporalização (paisagística) não só do gesto mas também da palavra.

[O projecto exposto foi desenvolvido em residência artística nas moagens Mendes Godinho, no complexo de Fábricas da Levada, em Tomar, durante o período de obras de recuperação do edifício e no âmbito da exposição colectiva “Há Trabalhos na Fábrica” apresentada no próprio complexo industrial em Maio de 2014 com o financiamento do projecto Europeu Materiality].

 

Inês Moreira,