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O sol estava sobre si – diz ela | Homenagem a Marguerite Duras

A exposição e mostra de performances O sol estava sobre si – diz ela, que integra um vasto programa de actividades, apresenta obras de Rita Roque, Daniel Moreira, N A V E, Catarina Oliveira, Jérémy Pajeanc (com colaboração de Maria Trabulo),Vera Mota, António Lago com Ossos do Ofício, Inês Vicente com Paula Ferreira, Daniel Pinheiro e Eric Many. Com curadoria de José Maia, Ana Carolina Frota, Patrícia do Vale, Rita Breda e Suzana Torres Corrêa, as obras apresentadas pretendem pensar o universo de Marguerite Duras. O projeto artístico será comemorativo do centenário do nascimento da escritora, dramaturga, argumentista e cineasta, integrado nas comemorações do Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa Cem anos de Marguerite Duras: Palavras e Imagens da Insistência.

A experiência que é proposta no interior de um armazém evoca imagens do cinema e literatura de Marguerite Duras. Nele, o corpo e a palavra, as imagens e vozes formam a cena, mas também abrem fendas que fragmentam e multiplicam as nossas impressões sobre esta mulher. Qual é a nossa Duras? As imagens, os textos, o cinema, os corpos de Duras são nos apresentados como um mundo, e mesmo nos retratos, falsamente temos um todo. Temos sim outros tempos, potências de memória, o presente de cada imagem, temos ensaios e processos. Colocados numa casa tratada como corpo, na qual entramos cada vez mais, camada a camada, percebemos que somos sempre outros. Somos espectadores ativos, no centro de um espaço entre plateau e plateia. Convocamos a ausência, o corpo que se confunde com o espaço e, nessa sua condição, enquanto superfície refletora, anula as fronteiras que o separam do mundo e constitui-se como uma interrupção, senão mesmo, a suspensão do seu sentido. Apresentam-se a narrativa no interior da narrativa, uma realidade que está entre, que cruza a ausência e o testemunho. Convocam-se os universos de Marguerite Duras, através de leituras, vídeo, conversas e testemunhos fragmentados, que vão habitar o espaço e revelar um mundo de impressões.

A primeira proposta apresenta será a publicação NAVE #3 que propõe uma relação individual com o espectador, uma leitura íntima. Objeto autónomo, possui componente de texto e imagem, tem na capa uma cianotipia. No interior as ilustrações estão impressas sobre papel litografado a azul da Prússia. O azul da Prússia é resultante do químico ferricianeto de potássio, usado na emulsão da cianotipia, um antigo procedimento fotográfico que encerra uma presença entre o sol e o papel à semelhança da espectralidade durasiana. Estaçao dos Correios da Rua Dupin apresenta-nos uma plateia, palavras que remetem para as legendas aos nossos pés, e na mezanine um vídeo com uma presença feminina que se debruça sobre todo o espaço. O cinema como presença que nos coloca no centro de todo o espaço, o ecrã passa a ser toda a parede. DURAS/ YANN, uma performance envolta da relação mágica entre Duras e Yann, inspirada em Homem Atlântico. Nesta performance a obra literária está condensada na ação e na imagem. Apresenta-nos um homem que é paisagem. O homem atlântico não se anula, é maior, ele é oceano. M. Duras — Falar de ausência apresenta-nos o enquadramento, a moldura que revela uma presença que percorre o espaço, um corpo que quer desaparecer, mas não completamente. A palavra é encerrada na imagem. Convoca o interior, a partir do universo de Índia Song.

Num gesto habito o que é ordem abre um espaço que habita no interior do armazém que convoca a intimidade, que reflete quem o habita, que envolve os espectadores nesse gesto de habitar o espaço. Comment on dit ça en portugais: Dura, Duras?… espacializa a palavra. Corpos habitam o espaço e as palavras são ditas, lidas em português e francês, o original e a tradução. O ensino enquanto inscrição mais elevada. Mundo dentro do mundo, sempre a abrir.

 

José Maia, Ana Carolina Frota, Patrícia do Vale, Rita Breda,Suzana Torres Corrêa