Mira Forum
Espaço Mira

“Sufoco” de Silvestre Pestana | Texto de Casimiro Pinto

JOGAR A REALIDADE: INVASÃO DO ESPAÇO FÍSICO E EXPLORAÇÃO DO ESPAÇO VIRTUAL

 

Cada artista escolhe da realidade material, social e cultural, as combinações que lhe interessam em função de uma finalidade, ou simplesmente, das possibilidades em proporcionar experiências de fruição estética, combinando múltiplas possibilidades de experimentação de realidades possíveis. Criar é, neste sentido, a capacidade de desenvolvimento criativo de ideias, pelo artista, no propósito de atribuir realidade e valor ao vivido da experiência estética, tornando manifesto o repertório hipotético de ações, sensações, emoções e sentimentos contidos na exploração do espaço de vaivém inter@Mundos, virtualizando-o e virtualizando-se num universo desterritorializado. É a partir das características de desrealização e da ação de desterritorialização que se unificam na obra de arte que o artista começa por estabelecer as redes de conexões entre as “coisas da criação” e as “coisas do mundo”. Que seja esse o SUFOCO, pela vertigem, de alguém que observa um dispositivo de representação que se abre para incluir quem o observa, então com estatuto de co-criador, e à galeria de arte que o contém, no mundo que representa – só atores fazem os metaversos, só por eles a arte é intervenção, só então a realidade é jogo, é mais real.

SÓ ATORES FAZEM METAVERSOS, INTERVINDO no fluxo de acontecimentos e explorando os espaços de criação, influenciando a forma como os objetos estéticos aprontam os seus significados, subjugando-se à estética do desfrute imediato. SÓ POR ELES A ARTE É INTERVENÇÃO PARTILHADA DOS SEUS COCRIADORES, pelas possibilidades de envolvimento intelectual e de perfomance estética obrada na relação que os inter@Mundos estabelecem com os seus residentes e destes entre si, SUBJETIVAMENTE. SÓ ENTÃO A REALIDADE É JOGO, É MAIS REAL PELO EFEITO DE CONTAMINAÇÃO QUE UM MUNDO PROPAGA NO OUTRO. NO LIMITE, O DESAFIO extremo que coloca o encontro entre o espaço INTER@MUNDOS e o seu residente consiste em conseguir que este experimente a sensação “de estar lá”, sem mediação, no interior do próprio ambiente gráfico que, talvez com esse propósito, consume realismo na sua representação.

A possibilidade do nosso avatar nos dar respostas emocionais, com as quais se pode ou não concordar, coloca-nos numa posição moral que nos desvincula da nossa identidade física, que nos permite jogar com a nossa identidade pública e permite que se testem e ampliem os nossos conhecimentos subjetivos, mas não a ordem das nossas vidas, relembrando-nos que ao virtual faltará sempre aquilo que outorga a sua força à produção estética e à vida: a irreversibilidade dos factos e a caducidade do artista, que não da SUA ARTE. Essa é a discussão que, naturalmente, fica de pé. FICARÁ SEMPRE.

 

Casimiro Pinto