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“Sufoco” de Silvestre Pestana | Texto de Eduarda Neves

O QUE PODE UM CORPO

 

A propósito de Lewis Carroll e das razões invocadas para modificar o título inicial da obra “As aventuras subterrâneas de Alice” para “Do outro lado do espelho”, Gilles Deleuze convida-nos a pensar que não há “aventuras de Alice, mas uma aventura: a sua ascensão à superfície, a sua desmistificação da falsa profundidade, a sua descoberta de que tudo se passa na fronteira”. Recorda-nos ainda o preconceito de associarmos superficial a pouca profundidade e não a vasta dimensão. Pelo contrário, associamos profundo a grande profundidade e não a fraca superfície. As imagens de SUFOCO materializam a vontade em não operar para lá da superfície da imagem, do espelho, impedindo que a obra se distancie da reflexão sobre o próprio suporte, como se o tema fosse um simples pretexto para exibir a série e a superfície. O indivíduo singular, agrupado na série, dissolve-se no anonimato.

Dissociando-se da tradição oitocentista do retrato psicológico e do entendimento do retrato como forma de trazer à superfície da imagem qualquer segredo a desvendar, SUFOCO distancia-se de qualquer componente intimista. As imagens produzidas afirmam a primazia da superfície, activando uma espécie de operação desconstrutiva do realismo óptico. A singularidade das imagens exprime-se numa lógica tipológica que o dispositivo da exposição reforça. O retrato em série torna semelhante o retratado mas falta-lhe a sua própria semelhança, a sua origem. Pela série o significado assume o papel de significante e o significante o de significado. Assegura-se a simultaneidade mas não a igualdade. Repetição e não reprodução. Uma série adquire sentido em função de outra série, tal como a identidade subsume a multiplicidade: “A forma serial é, pois, essencialmente multisserial. Já é assim em matemática, onde uma série construída na vizinhança de um ponto não tem interesse a não ser em função de uma outra série, construída em torno de outro ponto e que converge ou diverge da primeira.”

Impossível tarefa essa, a da identidade. Impossível subtrairmo-nos à superfície: uma imagem é uma imagem é uma imagem, diria Kosuth. A aparente simplicidade das imagens associada à ausência de espontaneidade, situa-as numa dimensão fundamentalmente analítica cujo sentido político e só aparentemente lúdico, se incorpora na memória subjectiva do corpo. A objectividade não é assumida como mera linguagem formal mas como aproximação crítica à realidade histórico-política. A banalização da guerra exprime-se na aparente banalidade da superfície e mobiliza a estratégia de construção da objectividade. Por isso, SUFOCO é ainda uma operação micropolítica que, tornando visíveis as relações de dominação, provoca a resistência dos modos de subjectivar. Entre o artista e os seus modelos, o autor e os seus anónimos, resta a margem para percorrer, um desdobramento de superfície. Assim podemos equacionar a impossibilidade da representação.

 

Eduarda Neves