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Espaço Mira

TRAVERSINGS / PASSAGENS de Margarida Paiva

Travessias e o imaginário do real

O barco é um pedaço flutuante de espaço, um lugar sem lugar, que vive por si mesmo, que é fechado sobre si e que é deixado, ao mesmo tempo, ao infinito do mar (…).

Michel Foucault (in Des Espaces Autres, 1967)

 

Nestas imagens, existe algo de insólito, um sublime gesto de tensão. Se o barco é esse pedaço flutuante de espaço, esse lugar sem lugar, fechado e infinito, heterotopia por excelência, existe algo de insólito num sublime gesto de tensão. Foucault oferecia-nos o barco com explícita razão de ser (…) a maior reserva da imaginação. (…) Nas civilizações sem barcos os sonhos secam, a espionagem substitui a aventura, e a polícia, os corsários. Aqui o lugar do barco é esse, o da suspensão, o da ilha, o da queda, onde o sonho é termo de existência num jogo subliminar com os limites do espaço e do tempo, tal como acontece com o labirinto, onde o percurso é mais importante que a saída.

Os lugares e o imaginário que os vídeos – médium por excelência – de Margarida Paiva (1975) nos mostram podem-se encontrar no sulco destes impulsos, algo entre o lugar do barco e o labirinto, um lugar sem lugar, mistério quase paradoxal que nos atira para um espaço intersticial, onde, num processo ficcional de montagem e desmontagem ganhamos tempo para pensar o real.

Neste seu novo projecto, Traversings / Travessias, a artista apresenta cinco vídeos com cerca de três minutos cada, estabelecidos num processo desfragmentado e descontínuo onde a cidade do Porto se advinha por reptos de circunstância casual. Apesar da singularidade dos cinco universos, subjaz uma linha de pensamento comum. Existe um tempo para além do tempo, algo pela qual a narrativa se rege e permanece subentendida. Talvez seja essa mesma suspensão, pausa que projeta o Tempo destas histórias para um tempo indeterminado. O golpe de tensão, por sua vez, será esse, gestos de persistência e superação numa realidade assíncrona/paralela. Nas cinco parcelas o sentimento de acção, de percurso prevalece sobre a ideia de fim, de chegada. É no indeterminado que a história existe, como em o Elogio de la Sombra, (1969)de Jorge Luis Borges, Não haverá nunca uma porta. Estás dentro / E o alcácer abarca o universo / E não tem nem anverso nem reverso / Nem externo muro nem secreto centro. / Não esperes que o rigor de teu caminho / Que teimosamente se bifurca em outro / Tenha fim. É de ferro teu destino. (…) Labirinto

Será esta uma das premissas que marca o trabalho de Margarida PaivaNuma posição por devir, onde através deste(s) imaginário(s) sucumbimos na nossa mesma solidão, existência e realidade.

Por muitas tentativas, estas palavras agem isoladas na potência desses lugares, desses sítios por emergir, no mistério da ficção das suas personagens, no singular das suas preposições. Socorro-me de que só nessa potência, para lá das palavras, nesse estado de queda, estas imagens existam. As imagens em movimento de Margarida Paiva coabitam num jogo labiríntico, físico e mental, num entre, nas brechas, nesse lugar onde a criação e a própria vida latejam, naquilo a que poderíamos chamar o imaginário do real.

 

João Terras