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A UNIDADE DE TODAS AS COISAS de Diogo Costa Amarante

A unidade de todas as coisas

 

A exposição A Unidade de Todas as Coisas é a primeira exposição individual de Diogo Costa Amarante. Esta instalação é composta por imagens, na sua maioria inéditas, realizadas durante o processo de preparação do filme Cidade Pequena, apresentadas em três projecções contínuas sobre duas telas. A primeira tela, com maiores dimensões, terá projecções nas suas duas faces (numa delas, três dípticos sequenciais; na outra, um plano em loop infinito). Na segunda tela será projectado um outro plano, de acção repetida. Na sua globalidade, a exposição A Unidade de Todas as Coisas inverte a frente e o avesso da projecção e do lugar do espectador, tornando-o parte do processo de montagem e da elaboração de sentidos. Ao circular, no espaço, entre projecções contrapostas, impossibilitado, num primeiro momento, de uma apreensão global das peças apresentadas a partir de um ponto de vista fixo, o espectador é desafiado a descobrir continuidades, afinidades e contrastes entre imagens justapostas ao mesmo tempo que lhe são sugeridas associações com outras imagens que, estando no avesso da tela (e, portanto, ocultadas pelas imagens que vê), funcionam como uma reminiscência que lhe permite intuir, como sensação ténue, a unidade de todas as coisas.

Durante a preparação do meu último filme, Cidade Pequena, no qual quis que o formato final de alguns dos quadros fosse composto por dois full frames reduzidos a 50% e unidos no centro do ecrã, tive a oportunidade de fazer vários testes, ora com imagens coincidentes (duas imagens justapostas que parecem fundir-se numa só), duplicadas ou revertidas; ora divergentes (duas imagens justapostas que mantêm a sua autonomia), expondo, desse modo, o mecanismo de construção do quadro. No final, acabei por usar no filme apenas os dípticos coincidentes.

Nesta exposição, apresento os dípticos divergentes, ou seja, aqueles que me surpreenderam pelas ligações inesperadas entre imagens. Da exploração de diferentes possibilidades de associação apareceram quase espontaneamente três dípticos que se dão a ver sequencialmente numa das faces das telas expostas. Percebi que uma cabra sem cabeça, filmada em Trás os Montes, descrevia o mesmo movimento de corpo, que uma mulher, filmada muito posteriormente, também ela sem cabeça, inclinada a colher legumes da terra. Uma unidade e afinidade de pose e movimento que em nenhum dos casos foi orquestrada por mim, mas que se tornou evidente pelo enquadramento. A partir deste jogo fui cruzando outras imagens, testando novas coincidências. Num segundo díptico, vê-se a minha irmã deitada na relva a ouvir música. O fio branco dos auscultadores coincide com a linha do horizonte que, em continuidade com o fio, parece deixar de ser paisagem, transformando-se num corpo abstrato, de formas redondas, inumanas, que a névoa destapa. No caso do terceiro díptico, onde se contrapõem um plano de um rebanho e um plano de escadas rolantes, ao mover as imagens na timeline de montagem, reparei que havia não só movimentos horizontais e diagonais ascendentes dos dois lados, mas mais curioso do que isso, um homem que ao sair das escadas rolantes num centro comercial em Viseu (numa das imagens) parece entrar no corpo de um pastor em Trás-os-Montes (na outra). No verso desta tela, onde são projectados estes três dípticos, vê-se um loop continuo e infinito de um homem deitado que filmei na Vagueira, perto de Aveiro. Pela forma como acariciava a barriga, parecia-me ora dormir, ora perdido em pensamentos e sonhos, ou mesmo morto. Quando, mais tarde, revi esta imagem, apercebi-me de que os peixes, no rio ao lado do homem, saltavam fora de água. Transformei esse momento numa continuidade sugestiva: um homem sonhador deitado à beira de um rio onde os peixes, inquietos, saltam à superfície poderia muito bem ter sonhado os dípticos que se vêem do outro lado da tela. Em contraponto a estas duas faces, apresenta-se numa segunda projecção, em fundo, uma cena noturna que completa a exposição. Se nas imagens anteriores estávamos num ambiente onírico, esta imagem noturna desperta-nos e traz-nos de volta à terra. No final da rodagem do filme Cidade Pequena, sendo já bastante tarde, o único sitio onde ainda era possível comprar cerveja àquela hora era numa roulotte que funciona 24 horas por dia, à entrada da auto-estrada. A rapariga que lá trabalhava, simpática, fazia questão de pôr música, perguntou se tinha cds no carro, pois levava horas ali sozinha sem ver ninguém. Era tão tarde que os amigos no facebook já não lhe respondiam. Quis saber como ocupava o tempo até às 8 da manhã, ali no meio do nada. Ela respondeu, com algum humor, que usava o turno da noite para pensar numa alternativa para um dia fugir dali.

 

Diogo Costa Amarante