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VELHO (E BELO) AMIGO | um abraço a José Mário Brandão

Velho (e belo) amigo um abraço a José Mário Brandão

 

Quando o meu mundo era mais mundo; e todo o mundo admitia uma mudança muito estranha, Mais pureza, mais carinho mais calma, mais alegria, No meu jeito de me dar Peninha por Caetano Veloso na canção Sonhos (1972 e 1982)

 

Recuperar os movimentos e as dinâmicas da produção artística em Portugal a partir dos anos de 1980 é também recuperar a figura do galerista e amigo José Mário Brandão e toda a constelação de artistas que a partir dele puderam gravitar. Este sentido de ser-radiante encaixa nas medidas de ação de JMB, que ao longo do seu percurso sempre procurou projetar, dar a ver e iluminar o outro, não fosse essa, no seu entender, a principal existência da sua prática. Mesmo sabendo da ligeireza deste gesto, o Espaço MIRA apresenta Velho (e belo) amigo, um ensaio para uma constelação-expositiva onde se traça um movimento recíproco do eu ao outro e em sentido inverso, reunindo obras e depoimentos de Albuquerque Mendes, Aglaíze Damasceno, António Lago, Carla Filipe, Efrain de Almeida, Gonçalo Pena, João Marçal, João Sousa Cardoso, José Almeida Pereira, Mauro Cerqueira, Miguel Soares, Nuno Ramalho, Nuno Sousa Vieira, Pedro Tudela, Paulo Lisboa, Cláudia Saldanha, Eglantina Monteiro, Francisco Alves e João Luís, onde se partilha um estado de presença e reconhecimento junto de José Mário Brandão. Num país adverso aos artistas, à cultura e às artes, no passado e no presente, a primeira porta e o primeiro abraço foi muitas das vezes o de José Mário. Hoje, as dinâmicas não correspondem ao abraço do passado, ainda mais individual, menos coletivo, mesmo assim, de toda a dimensão desse gesto, p’ra você que me esqueceu – aquele abraço! O ensaio expositivo clamado neste corpo plural, não convoca o eu no sentido celebrativo da prática do eu pelo eu. Em sentido gravitacional, os vários fragmentos: obras, palavras, imagens e presenças em movimento, convocam a figura de José Mário enquanto ser-coletivo, biografando e autobiografando direta e indiretamente a partir da sua pessoa. É por isso uma exposição coletiva que convoca o modo coletivo do individual, o modo de ser plural em terminologias singulares. Obras que que estendem essa relação de proximidade até ao gesto criativo, e mesmo quando essa relação não é tão direta, existe um devir por parte da presença da sua figura em reptos contaminadores e integradores.

Como numa canção, nos lugares de proximidade entre o músico e o ouvinte, parece que canta para nós, que é de nós que emerge a história que canta. As várias camadas de obras, palavras e imagens que podemos presenciar nesta mostra encontram José Mário assim como o mesmo se encontra nelas, obras do passado, obras novas, com a certeza que o encontraremos naquelas que estão por vir. Preexiste, no frágil galho de Efraim de Almeida, esse que é a casa, a árvore, a copa, é o galho onde pousamos, onde chegamos, onde migramos. É o pouso de onde voltamos a partir. Uma escultura que parte de um rizoma apanhado do chão pela mão do próprio José e oferecido a Efraim perto da sua casa no Porto, um objeto de proximidade, da mão pela mão

Preexiste, na imensidão do mar e do rio no poema visual de Aglaíze Damasceno que expande o nome de José Mário numa paisagem poética do eu.

É a relação de agradecimento e partilha mimeticamente repercutida na imagem de Carla Filipe: o peito, a identidade e a proximidade sobre o medalhão que exclama: “Vida sem utopia não acredito que exista” (Caetano Veloso em Abraçaço [2012]). Na perspetiva do curador que revitaliza e retoma leituras, que potencia a obra do artista, João Marçal abre o seu álbum de afetos e memórias numa instalação visual que cruza o arquivo e o desenho e que incita para o lugar daquele que abriu as portas aos primeiros passos e ampliou o lugar do ser-criativo.

No mesmo golpe também a obra de Mauro Cerqueira é uma obra de proximidades e gestos de intimidade, que convocam indiretamente a presença de José Mário como figura de projeção e antevisão – rampa e dinâmica. Existe por isso na obra de Cerqueira direta e indiretamente uma presença daqueles que o rodearam e rodeiam de forma embrionária. Ainda na obra de Mauro Cerqueira uma segunda escultura que compacta uma assemblage de materiais de construção em torno de uma garrafa. Trabalho e vida coabitando, numa figura escultórica que revisita o imaginário de produção artística em redor dos objetos mágicos de ponta nas sociedades africanas — as cores, pendores e colares, os materiais reais e de uso unidos energeticamente — aos quais José Mário tanto se aproxima dada a sua relação com o continente africano desde da sua estadia em serviço militar.

A mesma zona de afetos e proximidade numa outra ótica, Pedro Paiva mapeia uma série de desenhos do universo familiar, do lugar de quem se permite à partilha, à conversa, ao lugar indefinível do conto. No gesto matricial de quem partilha o desenho com o próximo. Uma zona de proximidade e intimidade similar à que Pedro Tudela apresenta, numa outra ordem do desenho, um retrato numa escala que não remete a sua verdadeira dimensão, um pequeno grande rosto, o rosto de quem aproxima aquele que deseja de uma forma precisa, morosa e meticulosa. Em Paiva e Tudela encontramos uma intimidade biográfica do artista, onde sincreticamente ainda vemos José Mário a admirar o artista-

O gesto do desenho nas aguarelas de Albuquerque Mendes, em três poses: o corpo político, o corpo livre, o corpo índio na potência espiritual da necessidade de constituirmos nos nossos modos sociais um novo olhar sobre o outro.

Do mesmo modo que as duas telas de José Almeida Pereira reconfiguram a posição do nosso olhar sobre o outro, através do gesto (a)moroso da pintura, esse outro, como um ser múltiplo, transformista e transgressor de qualquer humano. Noutro lugar, as pinturas de Gonçalo Pena circulam em dois espetros do retrato e autorretrato — suponha-se do próprio José e Pena — o próximo e o interino, num imaginário fronteiriço entre o espiritual e o físico, entre a mão e a mente, a sedução e a relação, num elo de ligação de liberdade e finitude.

Como esta exposição se abre ao universo de constelações em torno da figura de José Mário, num sentido de acolher e abraçar, também o vídeo de Nuno Sousa Vieira o faz, o galerista que abre e fecha, a porta que recebe e mostra. O som desse portão, além-humano, dimensiona o lugar da criação que será sempre um lugar de extensão e subitamente maior que o do próprio humano. Além-humano como o imaginário visual e pictórico da viagem proferida por Miguel Soares no vídeo projetado no espaço, o lugar de futuro como o lugar por descobrir, por escavar por ainda pensar, não fosse essa a perspetiva de José Mário.

Saímos a dançar com António Lago, corpo-tela, corpo-arquivo, numa aproximação ao público, dimensionando o lugar da obra e da criação, num gesto similar aos parangolés de Oiticica, desinibido, obra-ação, coletiva. Sobre o performer as imagens de José Mário, a posse, os lugares, o sempre jovem. Em todo o caso, a presença de José Mário é ainda, como em qualquer agente, um espetro, uma matéria por vir, uma luz dissecada em muitos pensamentos, uma presença omissa da imagem. Essa realidade parece ser partilhada tanto na imagem espectral de Nuno Ramalho, como no desenho de Paulo Lisboa. Primeiro na projeção de Ramalho, que disseca a imagem em espetros de luz, submetendo a representação ao espelho de um lugar por vir, em segundo no brilho, persistência e negro do desenho caligráfico de Paulo Lisboa, onde a procura de um mesmo lugar da luz e de uma outra espessura da matéria, parecem insistir no silêncio das suas imagens. Em ambos, a presença do eu de forma omissa, a espera, a conversa e o silêncio da partilha.

E ainda, as palavras de João de Sousa Cardoso, o conto em deleite de uma libertação de quem o escreveu como quem conta e não custa, o retorno à palavra para aquele que recebeu as suas. O retorno ao texto para recordar e agradecer, e ainda sonhar.

Paralelamente, o depoimento e o abraço. Várias derivações da intenção de arquivo como lugar de revisitação: O arquivo do som como singular amante, comentador e colecionador da música popular brasileira e das suas génesis identitárias que foi José Mário, o arquivo pessoal e as imagens do espaço da Casa como lugar de proximidades e extensão dos momentos da galeria, e o arquivo-abraço, apresentado agora, onde ecoam vários depoimentos projetando histórias e presenças, umas mais longas outras mais curtas, circunstâncias e partilhas de continuidade, onde perdura a sensatez do gesto de acolher, comunicar, cruzar e pensar junto. Da mesma forma que deu espaço, José Mário abriu caminho para novas reflexões, introduziu novas realidades e contaminou a produção artística numa miscigenação de universos, aproximando continentes, permitindo o ver para o fazer, o fazer como campo de visão.

Entre o espaço de todos estes pedaços suspensos na galeria, circulamos, conversamos e ainda assim agradecemos, aquém do seu abraço.

 

João Terras