Mira Forum
Espaço Mira

WYSIWAI_what you see is what art is de DAROCHA

Que coisa morreu na minha infância e está lá a ser eu?

Manuel António Pina, Alguém atrás de ti (Todas as Palavras, 2012)

 

O génio poliédrico de Luiz Darocha reflecte-se em tantos e em tão variados géneros ou suportes visuais. Dos coloridos livros de artista, irónicos e auto-irónicos, às cartas delicadamente desenhadas, passando pelas gravuras que lembram o traçado de Amadeo de Souza-Cardoso e os círculos órficos de Sonia Delaunay (do bidimensional transformam-se num corpo vivo tridimensional), os actos performativos e as assemblages inspiradas na mundividência de Marcel Duchamp, até às impressionantes ilustrações do imaginário infantil, nada parece escapar ao olhar atento de Luiz Darocha.

Nascido em 1945 em Oliveira de Azeméis e recentemente falecido, o pintor que a moderna história da arte parece ocultar do público português (que também assinava os seus trabalhos como Louis Darocha, J. L. Rochas ou Paris Couto) cursou Belas Artes no Porto, em Lisboa e em Coimbra, doutorou-se em Antropologia Patológica em Paris, cidade onde se estabelece a partir dos anos 60 e, entre 1974 e 1997, exerceu o cargo de professor de Artes Plásticas nas Universidades de Metz, Dijon, Limoges, Bourges e Reims. A convite de Ernesto de Sousa participa, em 1977, na Alternativa Zero, grande exposição colectiva que pretendia organizar as principais tendências vanguardistas da arte contemporânea portuguesa (refiram-se nomes como Helena Almeida, Fernando Calhau, Alberto Carneiro, E. M. de Melo e Castro, Ana Hatherly ou Álvaro Lapa) e ainda na inédita mostra de vídeo Confrontation realizada no Museu de Arte Moderna de Paris. É um critério de justiça recuperar, no Espaço MIRA, a memória da cultura caleidoscópica de Luiz Darocha. Vejamos os pequenos barcos e aviões de papel que descolam do plano real para circunscrever a orla do sonho, essas figuras fantásticas que começam e terminam na Infância (espaço mítico da poesia de Manuel António Pina que Darocha ilustrou no livro-homenagem O Senhor Pina, escrito por Álvaro Magalhães), qual viagem do Principezinho de Saint-Exupéry que cruza as múltiplas fronteiras do Universo sem jamais as habitar. Assim também é o legado de Luiz Darocha: um cosmonauta que nos fita nas suas incessantes metamorfoses.

 

Pedro Marques Pinto