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Espaço Mira

ZumZum de Sérgio Leitão | Texto de João Terras

FONEMAS DE UM UNIVERSO HAVER POLIFÓNICO

texto e palavras para ZumZum de Sérgio Leitão

 

No dossel florestal das mais densas florestas, destes lugares da mais antiga existência, desses alicerces arquitetónicos da civilização, no dossel das florestas, onde a copa das arvores se funde com o negro dos céus é o zumbido que lhes dá o corpo e alma. A ordem está no restolhar das folhas, no zumbido dos insetos e répteis, no zumbido, no zum, zum.

O fonema das florestas é o seu corpo de vozes múltiplas, indomável, indecifrável.

A floresta é uma polifonia de corpos, movimentos e danças. Da micro à macro escala, do plano ao volume, do voo picado ao plano rastejante e ao subsolo. Creio que por tal deriva será a floresta o lugar da maior abstração e libertação, o espaço de descontrolo por primazia genética, onde o Homem ainda é só, só.

Carlo Carrà (figura gravítica do Futurismo) acrescentará um r ao seu nome e logo este perdera a sua potência de nome para dar espaço a sua potência de ação. RRRRRÁ. Carlo Carrrrrà.

Aquilo que os futuristas sabiam, mas a cidade lhes encarregou de encobrir, era que o maior dos zumbidos alucinantes, a maior das velocidades, prospeções e possibilidades, a maior das metafísicas, estava nas florestas e não ali.

Sérgio Leitão é um artista dos que ainda não cessa de ir mais longe, de acumular, somar, aprofundar, sem com isso se deixar explodir na experimentação, no fluxo, na criação. Aquilo que um artista, artista, pode ser, e ele o é, é pensante, pensador, gravador, filósofo, um artista que não encontra só no fazer, encontra no problema do fazer, esticando a corda do fazer.

O eixo mediador e meditante, possibilitador, mas ainda assim sempre intersticial desta exposição, são três textos (LINGVISTA / THE LINGUIST [I-III]).

Três textos e o mito de um outro. Três textos em secções quase claras: princípio meio e fim.

As três páginas destes três textos flutuam na mesma dimensão de todos os outros elementos instalados na galeria, como a imagem por vir, a vida das formas inanimadas através do movimento nos ecrãs, desta mesma forma, as três páginas são além da sua forma gráfica, a forma da boca e da língua. São os fonemas que, pelo exercício, acabaram em signos na folha.

O que paira na forma destas folhas é o som que delas podemos emanar. O som e o corpo do artista. Este exercício surge da prática do artista na aprendizagem de uma língua como também de uma outra linguagem. Ao aprender a língua checa invertendo um filme legendado em checo do Inglês, Sérgio explora, partindo da abstração da linguagem, a aprendizagem de um novo colo de comunicação.

A outra língua quando não conhecida é o indecifrável e por isso o desviante.

O signo e a palavra, do signo à palavra, encontramos um lugar tremendamente vertiginoso onde, do tudo ao nada sabermos, está apenas a sua composição.

A potência dos fonemas nos textos é a mesma das imagens no chão, ao caminhar para o total processo de negação, subversão das imagens, possibilidade das formas, arquivos de arquivos de arquivos, imagens das imagens, línguas das línguas, até às línguas indecifráveis por nós, em todo o lado, Sérgio Leitão está a trabalhar na senda onde nos é ainda possível fugir do capitalismo, neste lugar onde a comunicação ainda está a procurar a sua composição, onde ainda não falamos línguas universais, composições algorítmicas, ritmos casados. Sérgio Leitão oferece-nos a vertigem.

Pensando no nascimento do MIRA, como lugar para a experimentação e exploração dos campos da imagem e seus formatos expandidos, da fotografia à imagem em movimento, a instalação de Sérgio forma-se também nessa potência encontrada na história e genética da fotografia. Uma instalação onde a imagem se esta a formar, a revelar, a conceber, a negar-se, a possivelmente surgir, onde as imagens surgem como diaporamas, projetam-se, arquivam-se, onde as imagens do real se procuram. Toda esta complexa teia, que cruza várias formas e objetos numa assemblage de materiais, está na base crítica de uma historiografia do universo da fotografia e por si das imagens do mundo contemporâneo.

O fim da experiência deste lugar habitado, poderá encontrar-se na sequência fílmica: TEMPO, TEMPO, STOPPZEIT! KLANGZEITFIGUREN (2021) uma paisagem de cores, linhas e movimentos ópticos, um mantra que poderia ser para Carrá e seus fonemas, para as suas paisagens e animais. Neste filme, onde vemos gráficos de estudos de processos estocásticos (padrão nas teorias e estudos das probabilidades onde o indeterminado se forma a partir de um evento aleatório), Sérgio deixa-nos no último lugar das forças e das ordens, no indeterminado e aleatório onde os fenómenos ocorrem na pausa (STOPPZEIT!) Pausa. Lugares de aleatoriedade como o são os lugares do sono, do ócio, da loucura e do marginal. Deixa-nos num lugar fora das forças. Como no lugar indecifrável da linguagem, como lugar irrevelável das imagens. Nesta instalação, aqui, somos ainda “o céu na boca” para citar Mumtazz e Poppe.

esse grande no descomunal.

O céu na boca.

Amar amar, amar rrrr [1]

É na língua, ingua, ingu, a, na língua.

 

João Terras