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“FAUSTO, o mistério do mundo” de Manuel Valente Alves

Out 29Dez 31

“FAUSTO, o mistério do mundo” de Manuel Valente Alves | Performance
Declinações de FAUSTO
No princípio era o mito, a lenda alemã que conta o pacto que o Dr. Johannes G. Faust (1480-1540) teria feito com o demónio. O Dr. Faust era um alquimista, um mago, um astrólogo, um profeta desiludido com os limites do conhecimento escolástico da época. Em troca da sua alma, recebe a energia intelectual que precisa para acreditar na ciência, na técnica, no progresso e também na eternidade.
A literatura tratou de glosar esta narrativa em várias obras publicadas. Mas é a obra “Fausto, uma tragédia” de Goethe publicada em 1808 (parte 1) que é marcante. E se nesta primeira parte domina a insatisfação do conhecimento que tem do mundo, na segunda, (publicada postumamente em 1832), as grandes questões são o prazer e o poder. Em ambas, estão presentes os eixos dominantes da existência humana.
A produção criativa e literária da personagem prosseguiu com as obras de Puchkin, Grabbe, Paul Valéry (Mon Faust), Fernando Pessoa (Fausto: uma tragédia subjectiva), Thomas Mann (Doktor Faustus), Rafael Dionísio, Edgar Brau e António Vieira (com o romance Doutor Fausto 1991).
Na música, a figura de Fausto marca as obras de Wagner, Berlioz, Schumann, Liszt e Gounod. No teatro, Bob Wilson encena Faust I e II. Mas é o cinema, o filme de Murnau (1926), que é convocado por Manuel Valente Alves na obra que apresenta no MIRA FORUM.
FAUSTO, o mistério do mundo
Neste vídeo, o artista traz Fausto para a sociedade contemporânea na que será a primeira proposta de abordagem ao mito neste suporte. Afinal, as questões que se colocam aplicam-se ao mundo contemporâneo: insatisfação, inquietação permanentes numa vida que é curta. A vontade de tudo querer saber e dominar depara-se com a inerente impossibilidade. Mas a dificuldade em aceitar os seus limites leva os humanos a considerar que o crescimento contínuo é possível e, assim, explora os recursos do mundo transformando a natureza ao ponto de a destruir e pôr em causa a própria existência.
No vídeo de Manuel Valente Alves, as imagens do filme de Murnau alternam com projeções disformes de vídeos publicitários de um centro de uma grande metrópole. São sequências alucinantes em que adivinhamos marcas associadas ao consumo e à especulação. Essa alternância, essa associação torna manifesta a reflexão do mito fáustico: a insatisfação permanente, o desejo de ultrapassar limites, a angústia da consciência da finitude, a voracidade do tempo, a vertigem de tudo querer conhecer e ter.
Manuel Valente Alves mostra os arranha-céus com janelas cegas para de seguida conduzir o olhar para o chão a observar um caracol, talvez a lembrar a necessidade de lentificar e recolher à concha, e um escaravelho que, em movimentos compassados, procura evitar (ou procurar?) a brecha, a fenda.
Citando o fogo e o fumo do Fausto de Murnau, o vídeo termina em fumo de fogo a inquietar, a interrogar.
Qual é o nosso inferno?
Qual é a nossa condenação?
Somos Fausto(?)
Manuela Matos Monteiro | out 2022
Ficha técnica
Autor: Manuel Valente Alves
Título: “Fausto, o mistério do mundo”, 2022
Curadoria: Manuela Matos Monteiro
Instalação: composta por 2 peças de vídeo montadas em 4 canais: cor, som, 00:36:52 (1 canal); cor, sem som, 00:07:40 (3 canais)
Corpo da Incerteza
Performance de Alice Martins
A convite de Manuel Valente Alves, Alice Martins percorre a instalação para revelar a incerteza dos corpos que desfilam no ecrã. Alice desenvolve uma performance em que o seu corpo dialoga com os diferentes registos da realidade, passando do exterior para o interior, tanto do espaço como de si própria. Lutando ou abraçando as contradições do “FAUSTO, Mistério do Mundo”, a acumulação de informação atravessa-a e (de)compõe um corpo feito de trechos e tentativas.
NOTAS BIOGRÁFICAS
MANUEL VALENTE ALVES
Manuel Valente Alves (Abrantes, Portugal) vive e trabalha em Lisboa. É formado em Medicina pela Universidade de Lisboa. O seu trabalho como artista visual tem-se desenvolvido em torno do conceito de paisagem, problematizando as suas relações com o corpo, a memória e a política. Utiliza uma grande variedade de técnicas e suportes (pintura, desenho, fotografia, vídeo, filme e instalação) através dos quais cria séries, exposições e outros projectos, nomeadamente para edição em livro e na web.
Desde 1983, realizou cerca de três dezenas de exposições individuais e participou em mais quarenta exposições coletivas em museus, galerias e outras instituições culturais, dentro e fora de Portugal. A sua obra visual encontra-se representada em numerosas coleções privadas, museus, bibliotecas e outras instituições culturais.
O interesse pelo pensamento e prática interdisciplinares tem-no levado a desenvolver, paralelamente à sua prática artística, trabalho de investigação e de curadoria nas áreas da história, da filosofia e da museologia, ligando arte, ciência, medicina e cultura visual. Neste âmbito, é autor, editor e co-editor de cerca de duas dezenas de livros, tem feito palestras, a convite de universidades, museus, sociedades científicas e outras instituições culturais, em Portugal e no estrangeiro, e organizado colóquios e conferências interdisciplinares. Foi comissário de mais de uma dezena de exposições institucionais, cruzando arte e ciência.
www.manuelvaentealves.org
ALICE MARTINS
Alice Martins é uma artista, coreógrafa e performer franco-portuguesa, que cruza as artes visuais e performativas. Ela cria formas híbridas que têm em comum o questionamento do corpo – individual, social, político – em relação ao seu contexto – ambiente, arquitectura, normas – e ao outro.
Licenciada em arquitectura e formada em dança e práticas do corpo, fundou o “Objet Global” em 2017: uma plataforma de investigação e experimentação em torno do corpo, do espaço e das linguagens. Com “Passion Passion”, uma companhia-atelier fundada em 2018, Alice compõe e cria peças performativas, no palco ou in situ. A sua peça Tenue foi apresentada na Fondation Louis Vuitton, no Palais de Tokyo, na Biennale Internationale de Design de Saint -Étienne, entre outros.
Actualmente, no âmbito do projecto “A au carré”, um duo de dança e performance em que participa com o seu irmão Adrien Martins, ela co-escreve Echoes’ Fantasy – Extended, numa residência artística desenvolvida pelo Centro Nacional de Dança de Paris em 2022-2023.
Empenhada na disseminação do saber, concebe e partilha regularmente os seus protocolos de pesquisa e criação em museus (Fondation Louis Vuitton, Centre Pompidou), teatro ou escolas de arte (École supérieure d’art et de design de Saint-Étienne).
É artista residente na Artagon Pantin 2022-2024
ESTA EXPOSIÇÃO INTEGRA O MIP- Mês da Imagem do Porto
Apoio: CMP

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4300-334 Campanhã, Porto

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