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“Ilhéus” de Moira Forjaz

Set 3Out 22

Os protagonistas deste projeto são ilhéus idosos que deixaram entrar a fotógrafa na sua intimidade, contando as suas vidas na primeira pessoa. Provavelmente foi a primeira vez que alguém lhe pediu para falar de si, dos próprios sonhos, da vida que levaram e daquela que queriam ter levado. Das suas frustrações, das deceções e das suas satisfações. Da sua vida.
Vestiram as roupas melhores, as mulheres da Ilha. As capulanas (panos) mais caprichadas, tiradas do baú para a ocasião. Há sempre uma capulana para qualquer ocasião… e falam tanto até que finalmente chega o click que as imortaliza e lhes rende a justiça de um anonimato forçado pela história.
Ilhéus é um projeto sobre a vida, sobre o facto que tudo está dentro de um único grande céu e todos têm direito a ter um nome. Não há nada de mais importante do que o nosso nome: é só com ele que existimos.
Paola Rolletta | Curadora
Exposição patente até 22 de outubro de quarta a sábado das 15:00 às 19:00
NOTA BIOGRÁFICA
Nem vinte anos tinha quando Moira Mathison (1942) quis sair do estreito enclave branco em Bulawayo, na ex-Rodésia, para abrir as asas e estudar arte. Eram os anos 60 e mudou-se para Joanesburgo. Com o dinheiro da venda de um casaco de pele – prenda do pai, Moira comprou a sua primeira máquina fotográfica, o talismã que a tem acompanhado ao longo de uma carreira marcada pela história de muitas revoluções.
Os anos 60 foram anos de luta. Luta contra o colonialismo. Foram anos de engajamento total e grandes (e)utopias. E os primeiros encontros em Joanesburgo marcaram para sempre a vida de Moira. Hillary Hamburger, Joe Slovo, Ruth First, e David Goldblatt, o fotógrafo conhecido pelas fotos durante o apartheid.
As detenções e o subsequente julgamento da liderança do ANC mudaram a história da África do Sul, tendo repercussões na história de Moira.
Foi sobretudo em Moçambique – onde encontrou o seu futuro marido, o arquiteto José Forjaz – que Moira desenvolveu a sua habilidade, tornando-se uma das fotógrafas oficiais do Presidente Samora Machel.
O engajamento político e social passou pela fotografia e pelo cinema, registando gentes, lutas, música, resgatando a vida com a sua miséria e a sua nobreza.
A Samora Machel e a Ruth First (com quem colaborou em vários trabalhos de campo), Moira dedicou o livro fotográfico Moçambique de 1975 a 1985, (2015), a preto e branco, onde se cruzam vários aspetos da vida dos primeiros anos do novo país, numa profunda sinestesia entre fotos e textos.
A beleza como dínamo para a justiça social, o comprometimento, o trabalho, são as marcas mais profundas da personalidade de Moira que, além de fotógrafa, foi cineasta (com Jean-Luc Godard), galerista (em Lisboa, nos anos 90), depois diretora de festivais de música em Portugal e em Moçambique.
Em 2012, Moira decidiu ir viver para a Ilha de Moçambique. A Ilha é o seu grande amor, que conheceu em 1976. Às suas gentes dedicou o seu primeiro livro fotográfico Muipiti, a branco e preto, editado em 1983, onde se percebe a cumplicidade entre a beleza dos cenários e a vida da população plural, além dos testemunhos patrimoniais da primeira capital moçambicana. Uma seleção das provas da época e outros originais foram expostas, anos mais tarde, em Roma, na Livraria “Paesi Nuovi”, famosa por ter sido o local do encontro, em 1970, de três líderes africanos, Amílcar Cabral, Agostinho Neto e Marcelino dos Santos, antes da audiência com o Papa Paulo VI que lhes deu a encíclica Populorum Progressio.
Em 2019, a bibliografia de Moira Forjaz enriquece-se com o livro Ilhéus, com fotos a cores, um desenvolvimento natural de Muipiti, focando-se nos ilhéus idosos. São imagens em que o rosto e o corpo se sobrepõem à História: ilhéus que a deixaram entrar na sua intimidade, contando as suas vidas na primeira pessoa.
Algumas das fotos de Muipiti, juntamente com outras que constam de Ilhéus, foram expostas em Veneza, no Pavilhão de Moçambique, em 2019.
O percurso fotográfico de Moira é uma caminhada constante para encontrar o significado mais recôndito da existência humana. Cada fotografia é como se fosse a sua pegada profunda e nítida, retratando seres numa união indissolúvel com a sua própria alma.
E foi na Ilha que Moira deu um passo à frente com o digital: “Só uma Nikon, uma lente de 50, luz natural e empatia. Na Ilha, voltei a ser fotógrafa”.
Paola Rolletta | Curadora
Esta exposição integra a edição de 2022 dos Encontros da Imagem

Rua de Miraflor, 155,
4300-334 Campanhã, Porto

terça a sábado,
15:00 às 19:00


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