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O MEU TESTEMUNHO: RUTURA E REPARAÇÃO

De Donna Bassin

MIRA Galerias | MIRA FORUM

Exposição

27.04—8.06.2024

Nas minhas fotografias os modelos - que são voluntários e não os meus pacientes - são envolvidos num processo profundo, no sentido de encontrarem um caminho que convoque a sua gestualidade, ao mesmo tempo que imaginam o público que irá testemunhá-los. Nesta série de fotografias, manualmente modificadas, as “práticas” do consultório fundiram-se com a “arte” de fotografar, criando imagens que obrigam e insistem que o olhar do público, outrora imaginado, coincida com o olhar dos modelos. 

Estes são tempos sombrios e de rutura. No futuro, haverá reparação, mas ficaremos já marcados com as cicatrizes das lesões infligidas à nossa democracia, ao nosso planeta e à nossa saúde mental. Confrontamos, e continuaremos a confrontar, a desumanidade e a injustiça para com aqueles que foram considerados invisíveis e sem direito à sua

subjetividade devido à sua raça, sexualidade, identidade de género, idade, etnia e/ou deficiência. Reconhecemos e observamos cuidadosamente a violência do nosso passado para que não se repita no futuro. Estas feridas simbolizam as nossas perdas que devem ser reconhecidas, para que façamos o luto e o transformemos, no sentido de ocorrer a mudança.

As fotografias impressas com tinta pigmentada em papel de arquivo são rasgadas para materializar as feridas que representem o sofrimento individual e coletivo para, posteriormente, virem a ser “curadas”. Os rasgos são cobertos com papel de arroz dourado e remendados com pontos desordenados de fio dourado - a inspiração surgiu da prática japonesa kintsugi, uma técnica ancestral que, metaforicamente, 

honra a aceitação da lesão como parte da vida do objeto integrando as 

experiências na sua nova forma. No kintsugi, a cerâmica partida é re-

parada com uma mistura de laca com pó de ouro, em que as áreas danificadas são realçadas e iluminadas pelas fissuras douradas, e não cobertas ou disfarçadas.

Através da pose, da gestualidade, do olhar e dos adereços ocasionais, os retratados encontram as suas narrativas, recuperam algum poder de ação e convidam o observador a olhá-los em toda a sua humanidade. Embora a bandeira americana tenha adquirido uma complexa 

simbologia, alguns retratados recuperaram-na e reinventaram-na para

expressarem o desafio e a esperança pelo regresso da democracia. Como conjunto fotográfico, o fundo de veludo preto constante em todas as fotografias e a iluminação chiaroscuro unem o indivíduo ao 

coletivo. 

Donna Bassin


Sermos quem somos pode ser traumático, especialmente em cultu-

ras desorganizadoras. Donna Bassin, através dos seus retratos, da voz dos retratados, das lágrimas nas fotografias e da engenhosa reparação kintsugi, faz-nos experienciar o trauma do outro e as nossas próprias feridas. 

Experienciar é integrar, estar consciente da beleza possível, que é muito presente nas fotografias de Donna. O trauma visível, na nossa 

consciência, como nestas fotografias, é saúde mental. Os movimentos de empatia de Donna e a sua vontade de ser testemunha são terapêuticos para nós, que viajamos para os mundos da experiência do trauma, e para os retratados, que vêem o seu trauma reconhecido, mas também a sua subjetividade valorizada, aceite, assim como é, sem definição prévia, sem rótulos, sejam eles de que tipo forem, porque cada um de nós é único, e merece ser descoberto nessa singularidade. Isto é saúde mental, porque dá sentido à vida.

Helder Chambel


PROGRAMA DA INAUGURAÇÃO

16h | Abertura da exposição

17h | Projeção do filme Leave no Soldier de Donna Bassin

17h50 | Conversa Diálogo 25 de Abril: Trauma e Revolução. Olhares da Psicanálise Relacional com Donna Bassin e Hélder Chambel

Leave No Soldier

Um documentário de Donna Bassin que segue duas comunidades de veteranos de guerra dos Estados Unidos da América, divididas pela sua política, mas unidas na sua devoção à gestão e transformação das perdas e do trauma da guerra em contestação moral, ativismo social e resiliência pós-trauma.

Conversa Diálogo 25 de Abril: Trauma e Revolução. Olhares da 

Psicanálise Relacional com Donna Bassin e Hélder Chambel

Intervenções de um orador da PsiRelacional, Hélder Chambel, que vai estabelecer a relação do trabalho de Donna sobre o trauma com o contexto português, nomeadamente o trauma agora, antes e depois do 25 de Abril. Comentário de Donna Bassin e debate com a audiência.


Esta exposição conta com a colaboração da Incubator Gallery e PsiRelacional Associação de Psicanálise Relacional e integra o projeto (IN)visibilidades e Derivas com o apoio da República Portuguesa/DGARTES



Nota Biográfica

Donna Bassin é uma arte-terapeuta, psicóloga clínica, psicanalista, 

cineasta e fotógrafa. É professora-adjunta e assistente clínica no programa de pós-doutoramento da Universidade de Nova Iorque em Psicoterapia e Psicanálise, onde leciona “Luto como transformação: a borda criativa do luto traumático e normal.” Publicou livros, recensões críticas, artigos sobre género, maternidade, ativismo comunitário, luto e memórias. As suas fotografias foram exibidas em museus e galerias e os seus dois documentários premiados foram exibidos em conferências, Leave no Soldier e The Mourning After. Estes documentários contam as histórias de veteranos americanos enquanto exploram e partilham o impacto do stress pós-traumático nas suas vidas e o uso da arte e da comunidade nos seus “regressos a casa”.

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