Fechar
A AMPLIFICAÇÃO DO MUNDO
MIRA Galerias | Espaço MIRA
Exposição
6.01—17.02.2024
Exposição Coletiva com: Afonso Loureiro; Diogo Martins; Elisabete Sousa; João Melo e Michel Bragança
Há momentos de viragem neste tempo recente que vivemos, facilmente identificáveis. Mas há outros momentos - menos óbvios - que empreendem uma mudança a que nem todos estamos atentos: a exposição coletiva que agora se apresenta no Espaço MIRA, em plena estreia do ano 2024, é uma dessas mudanças. Esta, que vem arrebatar o mundo das artes visuais de uma forma pouco subtil, propõe-nos que estejamos preparados para ela.
A amplificação do mundo é uma proposta de curadoria arrojada de Manuel Santos Maia, onde se pesquisa que a mistura entre realidade e ficção seja na verdade uma dilatação desses conceitos, concebendo espaços e corpos em transformação, numa fusão entre lugar e não lugar, entre orgânico e sintético, entre fugaz e permanente, entre melodia e ruído, entre obra de arte e devir.
Enquanto a academia tenta investigar a pertinência da inteligência artificial, e a sua possível integração na vida quotidiana - e a maioria dos especialistas desconfiam - outros há que a usam ao mais alto expoente criativo, conscientes de que a IA veio para ficar e não se fará anunciar: utilizando ferramentas de criação de imagens através de um prompt e consequente edição de vídeo, Elizabete Sousa apresenta numa projeção diferentes materializações, construídas para envolver e seduzir o espectador mais preparado. O título não engana, mas ainda assim provoca uma liberdade visual que não consegue evitar as suas comparações, remetendo para um misto de imaginários visuais que só dependem da nossa própria biblioteca, algures entre um universo cinematográfico de Kubrick, o anime japonês, os nossos piores pesadelos envolvendo experiências científicas pós-apocalípticas, com um salto realista à The Handmaid’s Tale, terminando com corpos complexos, difíceis de circunscrever porque não foram ainda inventados para um universo tridimensional. Complexas materializações visuais inquietantes de Afonso Loureiro, e de João Melo, com imagens em movimento de Diogo Martins, continuam a ocupação dos espaços da galeria do MIRA com algo a que tentamos atribuir significado. Por ser algo que nos confere conforto, enquanto seres humanos, desde que nos conhecemos que procuramos caras, corpos e paisagens reconhecíveis. Mas estas esculturas de grande formato escondem câmaras, lentes e monitores, de onde se lançam a uma provocação surrealista que engole as nossas expectativas, e nos deixa à espera de mais.
É através da pintura de João Melo e Michel Bragança que a exposição nos leva ao seu lado mais pragmático, porque a pintura nos dá uma sensação de reconhecimento, e de entendimento dos meios. Mas mesmo aqui os materiais são os mais diversos: objetos encontrados que servem de suporte, pinturas que parecem inacabadas. Através da representação de um devir artístico, a condição representada é existencial, o gesto das pinturas de João Melo é agressivo, mas delicodoce, enquanto Michel Bragança nos arrebata com autorretratos ricos de leituras moralizantes, com o ar delicado de uma criança que pega nos pincéis pela primeira vez (mas como já viu o 2001, Odisseia no Espaço, os seus sonhos já não são inocentes).
Esta exposição não oferece lugar à realidade, porque essa mantém aprisionado o mundo tal como ele é. Aqui, aguardamos uma metamorfose inevitável, dando início a uma viagem sem volta, onde tudo é possível. É recomendável que utilizemos as nossas referências cinematográficas para empreender esta viagem, pois tornar-se-á bem mais rica: a ver, por exemplo a cobiçada especiaria do Dune de Lynch, passando pelos desenhos de Giger no Alien, saltitando pelas cores saturadas do Laranja Mecânica, até ao híper contemporâneo Barbie de 2023.
Apertem o cinto.
Joana Mendonça
Curadoria: Manuel Santos Maia
Agradecimentos: Beatriz Teixeira, Eduardo Loureiro e Nuno Fareleira