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A QUESTÃO DA PAISAGEM A QUESTÃO DO VAZIO

de Augusto Lemos e Conceição Magalhães

MIRA Galerias | MIRA FORUM

Exposição

6.01—17.02.2024

A QUESTÃO DA PAISAGEM

Augusto Lemos

A paisagem não é simplesmente o que está diante de nós; é um conceito, um percepto cultural. Não se trata apenas de um local físico, mas de uma interpretação, uma grelha de leitura do natural que resulta de aprendizagem. Atualmente, com o predomínio do aprendizado através da imagem, identificamos naturalmente essa parte com o todo, essa parcela cognoscível que funciona globalmente, e a paisagem é verdadeiramente o que se vê.

Do que resulta, como esclarece Enrique Carbó, “El territorio no es un paisaje. Sólo puede serlo si se dan las circunstancias que permitan su conversión en elemento capaz de objetivar el goce estético de quien pueda abstraerse de su condición de sujeto histórico adscrito al territorio. El paisaje es pues, en primer lugar, cuestión de mirada, de una mirada despegada de las exigencias vitales del sujeto con respecto al territorio.”

Embora eu tenha abordado outros temas, a fotografia de pai-sagem foi o assunto que mais explorei, desde os anos 70 até hoje. Por isso, incluo no grande painel dezenas de fotografias que foram apresentadas ou publicadas, registadas com dife-

rentes câmaras ao longo do tempo. Algumas, as mais antigas, dos anos 70, foram capturadas com uma Nikkormat FT3 ou uma Nikon FE.

Outras foram registadas com câmaras estenopeicas ou com registo digital: iPhone 11, Fuji X20 ou Fuji X100F.

Este painel contém algumas imagens que fizeram parte da exposição Imagens Anunciadas (CPF 2007, sobre as viagens de José Leite de Vasconcelos), duas imagens publicadas no livro Fotografia do Douro: Arqueologia e Modernidade, (no âmbito dos 250 anos da Região Demarcada do Rio Douro), uma publicada no livro O Porto e seus Fotógrafos (Edição Porto 2001), algumas da exposição The Way (no âmbito do Webinar Caminhos de Compostela: O Peregrino em Processo de Patrimonialização) e algumas da exposição 8 hours before (Quase Galeria, 2015). Outras imagens surgiram em livros como As paisagens do viajante (no contexto dos 100 anos de José Saramago) e O Signo e a Paisagem (sobre a Estrada Nacional 2). Outras imagens ou fizeram parte de outros livros, trabalhos académicos ou foram apresentadas digitalmente durante os anos da pandemia.

As imagens a cores, emolduradas fazem parte da série Bloody Landscapes, (CPF, 2018), que consistia em fotografia de paisagem na zona onde decorreu, em Abril de 1918, a Batalha de La Lys.

As duas últimas imagens, dentro de uma única moldura, foram registadas com uma câmara estenopeica panorâmica, são inéditas, mas que irão fazer parte de um projecto que ando a desenvolver.

Hoje, a fotografia digital, facilita muito as tarefas do fotógrafo, mas não resolve os problemas do olhar fotográfico.

Augusto Lemos


A QUESTÃO DO VAZIO

Conceição Magalhães

Fotografo o espaço intermédio entre a vida e a morte. Percebo os passos, os cheiros e as cores das interações da vida, enquanto, simulta-

neamente, experimento, na quase ausência de luz, a réstia do pó da alma.

Uma nebulosa de poeira e um fio de luz permite-me ver fragmentos de um ser, num estado quase líquido, como se a vida aí não tivesse terminado. O espaço altera-se e, com a marca do tempo, paradoxalmente, tudo permanece no lugar. E fica.

Ficam, como num mausoléu, os objectos significantes da passagem terrena, que adquirem uma nova ordem e se fundem, criando uma estreita relação na sua superfície, como um todo inalterável.

Espreito pela brecha possível e vasculho. Impressionam-me as su-gestões de salas, escadas e portas que se abrem, testemunhas silenciosas do tempo, indicando conexões entre diferentes percursos de histórias pretéritas.

E procuro perceber modos de olhar para além do meu, mas subjugados à realidade que se mostra. Como um arqueólogo, interpretam-se as diferentes camadas dos tempos, criam-se rituais para garantir a veracidade da narrativa que não cessa, e assim, fazem-se relações e ficções, como se através de materialidades se depreendessem emoções, gestos, pensamentos.

E, apesar de contingentes, somos imortais, temos em nós as primeiras estrelas e então a vida é possível e talvez necessária. Além da matéria de que somos formados fica, muitas vezes, a respiração da vida.


Conceição Magalhães

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