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AINDA A BORDO DO BARCO TERRA
Regina Guimarães
MIRA Galerias | MIRA artes performativas
Exposição
1.03—22.03.2025
Eu gostava de fumar. Era uma potente fonte de devaneio. Tive de parar de o fazer porque, acrescidas à feroz artrose, as dificuldades respiratórias eram uma barra demasiado pesada para este meu, velho corpo. Então entreguei-me aos ancestrais trabalhos de agulha, bordar e não só, que na adolescência abominava porque me pareciam traduzir, ponto após ponto, a subalternização das mulheres... Aquilo que pelas narinas dissolvia o mundo em pensamento é-me agora um trabalho de mãos. Radicalmente amador como é minha convicção política. Fundamente ligado à oração como a rebelião poética. Note-se (quem sabe, repara logo) que eu não sei bordar. Isto não é o meu corpo, é apenas eco de corpo meu em infindável tracejado, incapaz de se deixar passar a limpo. A Elvira Leite, mestra dos mestres que duvidam dos mestres – por e para quem esta mostra de farrapos é – percebe, julgo eu, perfeitamente o que eu quero dizer. Aureolada de seu cabelo bíblico, foi minha professora aos dez anos. Devo-lhe muito do meu gosto pelo desenho. E também o ensejo de que as artes sejam livremente praticadas por todos, para que a humanidade se liberte do trabalho escravo. © Regina Guimarães
Curadoria: Elvira Leite
Nota Biográfica
Regina Guimarães, Porto, 1957. A par dos seus poemas, publicados por pequenas editoras, tem desenvolvido actividade nas áreas da Tradução, da Canção, da Educação pela Arte, das Artes do Palco e das Artes Visuais. Tem vasta obra como dramaturga, argumentista e videasta. Foi docente na FLUP, na ESMAE e na ESAD. Aspira a estar em todo o lugar onde haja uma luta justa a travar. Vive e trabalha com Saguenail desde 1975.
Elvira Leite nasceu no Porto em 1936, tendo-se licenciado em Pintura na Escola de Belas-Artes do Porto em 1962. Para além de pintora, foi professora dos ensinos básico e secundário entre 1963 e 2000. Ainda no âmbito do ensino, foi professora convidada da disciplina de Didáctica Específica, na Faculdade de Psicologia e Ciências de Educação da Universidade do Porto, de 1989 a 2003. De 1977 a 1990, entre outras actividades, foi programadora, coordenadora e orientadora de acções de formação, sobre criatividade e técnicas, para mulheres emigrantes portuguesas residentes na Alemanha, Bélgica, França e Luxemburgo, nos módulos de um curso implementado pelo Instituto de Apoio à Emigração e às Comunidades Portuguesas. Foi conselheira sobre educação artística no país e em países de língua portuguesa, nomeadamente Timor e Cabo Verde. Desenvolveu actividade como consultora em várias instituições: na Fundação para o Desenvolvimento do Vale de Campanhã (1998/2002), no Serviço Educativo do Museu Soares dos Reis (2000/2001), no Centro Regional de Artes Tradicionais (2003) e no Serviço Educativo da Fundação de Serralves (1999/2014). No âmbito da sua actividade como pintora, recebeu em 1968, o Prémio Nacional de Pintura. Foi agraciada com a Ordem do Infante D. Henrique, grau de Grande Oficial (2004).