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DA PAISAGEM AO MAPA _ CAPÍTULO I
de Mafalda Santos
MIRA Galerias | Espaço MIRA
Exposição
7.11—18.01.2025
Da paisagem ao mapa é o título da exposição individual de Mafalda Santos que inaugura um ciclo de mostras comissariado pela própria artista. Este projeto estabelece um diálogo entre a prática artística de Mafalda Santos e a visão de curadores convidados, promovendo uma análise crítica e aprofundada sobre o percurso artístico da autora ao longo das últimas duas décadas.
Neste primeiro capítulo, a exposição reúne 11 pinturas em acrílico sobre tela, realizadas em cinco períodos distintos. Estas obras exploram a pintura através da abstração geométrica, com destaque para elementos como a linha e formas simples — o círculo, o quadrado e o retângulo — integrados numa dinâmica de variações cromáticas que oscilam entre a presença e a ausência de cor. Este diálogo formal resulta na construção de novas realidades pictóricas que, ao mesmo tempo, refletem e reconfiguram o real, oferecendo uma multiplicidade de leituras que aludem à complexidade do mundo contemporâneo.
As peças expostas situam-se num território ambíguo, entre a pintura tradicional e a infografia, evocando referências como a pixelização e códigos visuais próprios do universo digital. Esta ambivalência permite leituras plurais, navegando entre escalas micro e macro, e criando zonas de luz e sombra, de visibilidade e invisibilidade, de legibilidade e ilegibilidade. Assim, as obras propõem uma experiência visual e conceptual multifacetada, sustentada pela riqueza e densidade das suas camadas de significado.
O ciclo expositivo que agora se inicia visa refletir sobre temas recorrentes no trabalho da artista, como a ideia de rede e interconetividade. Aborda, ainda, a relação do ser humano contemporâneo com um mundo moldado pelas redes de informação, que redefinem os espaços e tempos de interação com o outro e com o que nos rodeia.
Centrada nos campos da pintura e do desenho, a prática artística de Mafalda Santos explora as possibilidades expandidas destas linguagens, utilizando um vocabulário visual que inclui esquemas, mapas, cronologias, palavras espacializadas, linhas, cores e formas geométricas simples. Este repertório visual permite-lhe materializar e conceptualizar a ideia de rede, ao mesmo tempo que se debruça sobre contextos específicos. Através da pintura e do desenho, a artista desenvolve ferramentas para pensar e compreender sensivelmente o mundo que a rodeia.
Pertencente à última geração que cresceu num mundo maioritariamente analógico, a formação de Mafalda Santos como artista coincidiu com a introdução da tecnologia no quotidiano, a massificação do acesso à internet e o surgimento das redes sociais. Estas transformações informam o seu trabalho, que aborda a dicotomia entre o digital e o manual, refletindo sobre a relação entre conhecimento, memória e as narrativas que moldam a identidade e o posicionamento do indivíduo.
Embora a linguagem visual de Mafalda Santos convoque frequentemente elementos associados ao universo digital — como pixels, pastas de arquivo ou gráficos — o seu processo de produção é essencialmente manual. Este método envolve a repetição orgânica de formas e gestos, onde cada decisão ou hesitação da mão, cada imperfeição na “epiderme da pintura”, imprime singularidade e humaniza o processo criativo. Ao introduzir na sua prática o acaso, o erro e o acidente, elementos que conferem subjetividade e expressividade às suas obras, a artista questiona a ideia de algoritmo, entendendo-o como um conjunto de ações definido para resolver problemas.
Nos próximos capítulos deste ciclo, a artista revisitará diversos momentos do seu percurso criativo, reunindo obras de diferentes projetos expo-
sitivos, algumas apresentadas pela primeira vez em novos contextos e espaços. Estas exposições permitirão estabelecer conexões e realizar novas leituras do seu trabalho, agrupando as obras em núcleos com afinidades formais e conceptuais. Nesse diálogo entre obras mais antigas e recentes, serão apresentadas não apenas pinturas e desenhos, mas também esculturas, murais, instalações, colagens e assemblagens, resultando numa passagem da bidimensionalidade para a tridimensionalidade e na construção de pinturas-objeto.
Cada uma destas revisões públicas constituirá uma oportunidade para aprofundar a reflexão sobre a obra, fomentando debates com artistas, curadores, investigadores e público em geral. Através de conferências, conversas, visitas guiadas e textos críticos, serão produzidos novos enquadramentos conceptuais e teóricos do trabalho de Mafalda Santos.
Ao longo deste ciclo, a artista desenvolverá um novo corpo de trabalho, a ser apresentado na exposição final. Toda a documentação das exposições, o arquivo dos 20 anos de prática artística e as reflexões críticas produzidas por múltiplos comentadores serão compiladas numa publicação, que servirá de memória e registo deste projeto ambicioso e profundamente investigativo.
www.mafaldasantos.pt
Curadoria: Manuel Santos Maia
AGRADECIMENTOS
Galeria Presença, Rita Alves, Querida turma de Doutoramento em Artes Plásticas 2024/25, da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto
Nota Biográfica
MAFALDA SANTOS Mafalda Santos (Porto, 1980), vive e trabalha entre Porto e Vila Nova de Cerveira. É artista plástica, curadora e programadora. Licenciada em Pintura na Faculdade de Belas Artes do Porto em 2004, com grau de especialista em Belas-Artes, Pintura. Foi Professora de Artes Plásticas e Tecnologias Artísticas na Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Viana do Castelo. Mantém um percurso expositivo em Portugal e no estrangeiro desde 2001, de que se destaca nas exposições “Histórias de uma coleção” na Fundação Calouste Gulbenkian, em 2023; “Variações Portugaises”, no Centre d'Art Contemporain Meymac, França, em 2026; “Portugal Agora, A Propos des Liex d'Origine” no MUDAM Centre D'art Moderne Gran-Duc Jean, Luxemburgo, em 2008; e “Café Portugal” exposição coletiva, uma iniciativa da Presidência da República, em Évora, Bratislava e Ponta Delgada, entre 2008 e 2009. Em 2007/2008, como bolseira da Fundação Calouste Gulbenkian e da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD), realizou a residência artística Location One, em Nova Iorque, foi selecionada para o Prémio EDP Novos Artistas 2007 e em 2005 para a exposição “7 artistas ao 10º mês” na Fundação Calouste Gulbenkian. O seu trabalho encontra-se incluído nas coleções portuguesas de António Cachola, das Fundações EDP e Ilídio Pinho, Grupo RAR, Fundação PLMJ, Fundação Calouste Gulbenkian, Câmara Municipal de Lisboa e Câmara Municipal do Porto e na Coleção de Arte do Estado e em diversas coleções privadas nacionais e estrangeiras. Entre 2002 e 2007 foi co-diretora do espaço independente PêssegoPráSemana, no Porto. Entre 2013 e 2018, geriu o programa de residências artísticas Moinho da Fonte Santa no Alentejo, no Alandroal. É responsável com Susana Gaudêncio pelo projeto Pessoa Colectiva, na organização de eventos e exposições desde 2012. Atualmente faz parte da Equipa Curatorial e de Programação da Fundação Bienal de Arte de Cerveira. www.mafaldasantos.pt