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FEMININO DE NINGUÉM
de Ana Pérez-Quiroga | Beatriz Teixeira | Joana Patrão | Rita Castanheira | Rafaela Lima
MIRA Galerias | Espaço MIRA
Exposição
24.02—5.04.2025
Entramos no primeiro armazém de Miraflor para conhecer Feminino de ninguém, uma expressão apropriada a partir de uma obra de Maria Gabriela
Llansol, referência bibliográfica amplamente utilizada pelo curador Manuel Santos Maia, pela forma poderosa de utilização da palavra, mas também do que esta assume, ao nível de expectativa de mudança no mundo.
Através da convergência de pintura, escultura, fotografia, vídeo, instalação, publicações de artista e ainda performance, podemos dizer que é acerca da transformação que esta exposição trata, mas também do imutável, do absoluto e do visceral.
A primeira obra que conhecemos é de Ana Pérez-Quiroga Absolut taste of diversity - Shanghai, (2013) constituída de diversos elementos de seda colorida, entre a estética da bandeira e da cenografia de espaços teatrais, remete para a sua pesquisa em torno do quotidiano de uma artista, desde a sua casa pessoal às viagens e aos objetos que acumula ao longo dos anos. Esta peça de Quiroga cria um ritmo particular, subdivide o espaço de forma orgânica, aproxima as gerações que separam estas artistas e faz-nos pensar na expressão “de ninguém” que está por todo o lado (ver rodapés da galeria). O espaço é, portanto, do coletivo, que partilha noções de aqui e agora, utilizando para isso metodologias completamente distintas. No entanto, Ana Pérez-Quiroga dita o ritmo inicial - que eu diria lento - de visita à exposição, pela interpretação de icónicos jardins representados na pintura, mas desta vez através de grandes tecidos de lã. Talvez não seja imediato, mas há algo de muito familiar neste primeiro jardim, pela sugestão de piquenique, lugar de descanso ou contemplação. Estabelece-se aqui um convite para a compreensão sensorial da exposição, que se vai desvendando à medida que percorremos a galeria.
Podemos dizer que Beatriz Teixeira se encontra num limbo de uma forte presença de tecnologia (ou o plasma no chão que nos apresenta a imagem gráfica da exposição da sua autoria), combinada com a possibilidade de fazer algo com as nossas próprias mãos, conscientes do tempo que implica, e das possibilidades que daí advêm: Beatriz Teixeira apresenta o revisitar do projeto Inércia que se dedica a investigar os limites do design enquanto prática historicamente dependente de um empregador, e a sua capacidade de persistir quando essa encomenda não existe. A sua obra torna-se, por isso, difícil de definir - onde começa e termina - pela sua presença gráfica, pela escrita manual do título da exposição, pela sua forte determinação em criar uma unidade. Há ainda um carácter autobiográfico que nos faz colocar questões, nem que seja para nós próprios.
Rafaela Lima apresenta obras do projeto Dos zero aos cinco mil pés, que se trata de um projeto de investigação que se dedica ao registo de um voo que a mesma não realizou. O medo de voar é um dos mais absolutos, partilhado pelas crianças mais jovens e os mais robustos e experientes adultos, trazendo à memória a obra do artista búlgaro Nedko Solakov que, durante anos, viajava de avião com pedaços de barro que se tornavam os relicários das viagens. Estas marcas duradouras das mãos do artista serviam de purga, uma forma de autocontrole que acabou por abandonar quando, a certa altura na sua carreira, decidiu deixar de andar de avião, recusando convites para exposições além-mar, condicionando o seu próprio percurso. Rafaela está no lado oposto da narrativa, estando o seu percurso artístico num início, optando por conceber uma estrutura expositiva credível, fotografando os aviões no Aero Clube de Castro Verde, permitindo a criação de uma história possível, a sua própria história da aviação. A peça completa-se com uma instalação que, através de jogos de luz, aborda a ilusão de estarmos perante algo real ou imaginário.
Continuando o percurso pela galeria, Rita Castanheira representa uma geração de artistas que deixam que a tecnologia se torne uma aliada (no seu caso, mais ainda do que uma aliada), por outro lado está também muito interessada em aprender novas práticas, como a do bordar e coser. Com uma visita mais demorada pelo seu núcleo, compreendemos que o saber fazer está muito mais presente do que aparentava à primeira vista. O que é curioso é que para Rita Castanheira, as “novas práticas” que tem estado a aprender, são o mais ancestrais possível (que o digam as nossas avós). E podem ser ainda consideradas como práticas femininas, embora essa já seja uma provocação que aqui deixo ficar.
Rita investiga o lado cacofónico que habita o limbo da sua geração, o avatar que nos permite estar onde quisermos (e em vários sítios ao mesmo tempo) é aqui transportado de forma literal: compreendemos o seu processo de trabalho através de uma simulação do espaço de trabalho. O desktop do seu computador pessoal é na verdade o cenário de um vídeo concebido para esse jogo do esconde. Da sua pesquisa em torno de populares jogos de computador que permitem a customização de uma personagem, seleciona cenas e excertos relacionados com artistas pop e estética japonesa: sobrepõe o seu rosto, faz
karaoke, usa filtros de tik tok, deixa-nos ler as suas conversas no WhatsApp (será?). Estamos sempre a vê-la, mesmo que não nos apercebamos disso. Dos vídeos apresentados em múltiplos ecrãs, afirma “estes aqui ainda vão dar origem a outra coisa, mais longa, no futuro”, dando-nos a entender que estamos perante o seu processo de trabalho, o seu pensamento e ao mesmo tempo a possibilidade de ver ali um coletivo, uma geração inteira.
Terminamos o percurso narrativo com a obra de Joana Patrão, talvez as mais metódicas das peças aqui apresentadas, pela forma como sistematizam os processos artísticos. “Como desenhar o mar” refere-se a um projeto de continuidade, que teve início num exercício obsessivo de desenhar um mar por dia, recorrendo às linhas do movimento do mar. Sabendo que este tipo de desenho seguia um mesmo processo, ou seja, a linha seguinte tinha sempre uma relação com a anterior, Joana Patrão deu início a uma nova metodologia de desenho para a peça que aqui se apresenta instalada no chão, em forma de livro de artista. Aqui, o mar já não está prisioneiro da sua primeira linha, responde sim a uma proposição poética: “não me refiro às suas aparências, mas ao decorrer do tempo, à sua
fluidez, à sua alternância”. Durante este processo, Joana recolhe de forma cirúrgica as informações que o mar lhe dá, desde os elementos mais sensoriais às linhas analíticas que constrói em diagramas por cima das imagens, que usa depois em diferido. Desta forma, criando um sistema de distanciamento do modelo, o desenho deixa também de o ser, passando a ser uma forma de medir as circunstâncias que nos levam a chegar aqui, e a criar uma peça completamente autónoma que pode ser interpretada de múltiplas formas.
“O desenho surge assim como uma forma de escrever o tempo” e de nos dar a nós liberdade de o sentir, se assim o desejarmos.
Enquanto visitamos a exposição, sentimos uma forte presença que não é visível, a das referências trazidas pelas artistas e pelo curador. Se, para Maria Gabriela Llansol, o feminino não é de ninguém em particular, mas sim de toda a gente, então é essa a liberdade do sentir que a exposição nos permite: a de que há certezas nos temas aqui assumidos, como a casa, o quotidiano, os medos, a repetição, o absoluto tecnológico do tempo em que vivemos. Mas há também lugar à tomada de decisão por parte do público: o que significa o céu e o mar, porquê a cor e a paisagem. Onde nos levam estas perguntas? Talvez a formular ainda mais perguntas.
Joana Mendonça
Curadoria Manuel Santos Maia