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GEOGRAFIA IMATERIAL

MIRA Galerias | Espaço MIRA

Exposição

7.09—12.10.2024

Exposição Coletiva com:

André Sousa; Nuno Ramalho e Sérgio Leitão



Geografia imaterial reúne um conjunto imprevisível (ou assim há quem o possa pensar) da obra de três artistas contemporâneos. Manuel Santos Maia concebeu a curadoria desta exposição a partir do mote da liberdade das imagens. Três discursos distintos aproximam-se, quando a sua concretização visual é realizada pelo desejo de existirem apenas num mundo onde, por vezes, lhes é exigida uma razão ou permissão para o ser. Coexistem no mesmo espaço, plural e democrático. “Não são estranhas nem estrangeiras a nós [as imagens], arriscando uma

existência mínima por não pretenderem ter a capacidade ou força para se impor perante as outras...” (nas palavras do curador).

Através do registo fotográfico de ações anteriores, Nuno Ramalho apropria-se de imagens por si próprio criadas e transforma-as. Entre a forma e o informe tanto presente no corpo humano, como na própria plasticidade dos materiais e da esponja, em particular, figuras cortadas são (re)construídas e suspensas.

Observamos um corpo, despedaçado, sem rosto, nem identidade. Como que “envolvido num combate consigo mesmo”, o corpo ataca-se e protege-se, simultaneamente. O diálogo crítico do criador com a obra, a disputa interior constante e a luta universal consequente das rasteiras que cada um se vai pregando a si próprio, tentando logo depois, amparar a queda. Ou então, uma dança entre duas pessoas, dois eus talvez - pairam no ar e deixam-se conduzir pelos estímulos que vão recebendo de fora, de quem por ali passa, do vento que sopra, ou da eventual música que alguém ousasse tocar.

Está presente a ideia de continuidade e movimento, através da sequência de imagens que são colocadas lado a lado ou em confronto e provocam leituras inesperadas. A fotografia que, anteriormente, estava dependente da realidade, parte agora dela, ganhando uma nova dimensão, pela conquista do surrealismo sobre o imaginário.

Na obra de Sérgio Leitão, a figura dilui-se em manchas de cor, mais ou menos iluminadas, dando lugar a paisagens abstratas. É pela assemblage de objetos, do arquivo pessoal do artista e relacionados com o local onde os expõe, que nos apercebemos d’ “a espantosa realidade das coisas”. Ora sobrepostas, ora lado a lado, as imagens não infligem hierarquias, coexistem em harmonia, porque em conjunto contam histórias. Existe uma permanência das imagens, ainda que estas sejam passíveis de ser alteradas - encontram-se em potência, pois estão abertas a inúmeras possibilidades.

Cada montagem de coisas é realizada in situ, como não poderia deixar de ser, uma vez que a obra dialoga diretamente com o espaço onde se insere. Porém, é precisamente esse trabalho processual, comummente realizado em atelier, que nos é apresentado a cru, como parte integrante da obra.

Por outro lado, os recortes de caráter futurista e os desenhos iconográficos, que remetem para o grafismo da banda desenhada, relacionam-se com as pinturas de André Sousa, onde a energia é representada por um, ou vários, raios. Uma nuvem, branca e serena, dá origem a algo indomável, definido por cores fortes e contrastantes: o raio, que “tanto impressiona pela beleza, como mata.”

É emoldurado por limites que o tentam conter, mas não são bem-sucedidos. Como que uma tentativa de controlar algo que seria impossível – um fenómeno atmosférico e energético esmagador captado e enjaulado num suporte bidimensional. O artista desafia o olhar e a imaginação do espectador, convidando-o a completar o desenho. Ao olhar as imagens, ouvimos um trovão, que nos atravessa sinestesicamente o pensamento.

Muitas vezes simbolicamente associado à fúria da Natureza ou do poder e ordem de algum Deus-pai, é aqui representado numa paleta de cores que se desdobra entre os tons mais fechados e os mais claros, que concedem uma certa ironia e leveza à imagem e à caracterização deste signo.

A ideia de estrutura é algo transversal aos três artistas, que exploram o conceito de diversos modos. Sérgio Leitão organiza as suas composições em filas, pontuadas por pequenas janelas de luz e cor, que contrastam com os fundos pretos ou brancos. Por outro lado, André Sousa brinca com os limites do suporte, desafiando a nível compositivo, a ideia de finitude, o desenho do raio extrapola as fronteiras da tela. A grelha vermelha perfeitamente estruturada na folha de papel chinês forma a base para as consecutivas tentativas do desenhado caligráfico; por oposição às lonas de algodão, onde quase que passa despercebido esse esqueleto, por meio das dobras toscas e subtis da própria tela.

Já o quadriculado da folha de papel que ornamenta a “moldura” da escultura, de Nuno Ramalho, é preenchido meticulosamente à mão. Criam-se padrões que, segundo um olhar mais desatento, poderão ser percecionados como automáticos no sentido em que poderiam ter sido produzidos por uma máquina. O que surpreende é precisamente o tempo e carinho investidos no desenvolvimento detalhado do desenho/padrão. O trabalho de sombras que certos elementos integrantes apresentam, as diferentes pressões aplicadas aquando da imposição da tinta no papel, as eventuais falhas em detrimento da perfeição do traço repetido são o que elevam o conjunto.

Se a geografia é a ciência que estuda e inter-relaciona os aspetos físicos e humanos na superfície terrestre (a configuração de um determinado espaço) e o conceito “imaterial” se refere àquilo que é incorpóreo e intangível - poderemos pensar nesta exposição “geografia imaterial” como a linguagem do mundo (ou mundos), através da mão do homem e da sua espiritualidade (da natureza do “espírito”, que é relativo ao pensamento ou à mente; que representa indiretamente uma coisa ou uma ideia).


Leonor Guerreiro Queiroz


Curadoria Manuel Santos Maia

Agradecimentos Catarina Felgueiras

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