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MEMBRANA

Coletivo Barda

MIRA Galerias | Espaço MIRA

Exposição

12.04—24.05.2025

À medida que as interfaces se tornam o lugar recorrente da experiência quotidiana, impõe-se a urgência de reencontrar formas de relação com o mundo que sejam mais atentas, empáticas e porosas. A ubiquidade da mediação digital, ao condensar os gestos num toque e a presença num fluxo de dados, tende a reduzir a vida a uma versão operativa, esvaziando-a de fricção, de espera, de escuta. Contra esse alheamento, que dissocia o corpo do ambiente, importa reativar os sentidos como vias de conhecimento e de relação.

Mais do que tudo, importa pensar o mundo não como um conjunto de dados a processar, mas como lugar tangível. A partir da figura da membrana, as obras em exposição evocam processos de adaptação sensorial que os corpos desenvolvem na sua relação com o mundo. As membranas regulam trocas de substâncias e de energia entre interior e exterior. São permeáveis, não asseguram a distância; antes permitem a infiltração e a contaminação. Por isso mesmo, contrastam com o modo de operar da interface, que tende a preservar a separação entre corpos, funcionando como superfície de visualização e de tradução.

Em exposição, multiplicam-se os suportes de impressão de imagem que se desviam da convencional impressão fotográfica, cedendo lugar a materiais que, pela sua própria natureza, sugerem a ideia de membrana. A importância da matéria é tanto maior quanto se omitem, na folha de sala, os títulos das peças, destacando-se o material: filme dicróico, látex, tecido de poliéster, acetato…entre outras transparências e películas.

No seu conjunto, configuram um aparato que convoca os sentidos. Ainda que diante de imagens — muitas delas fotográficas, associadas quase sempre a um referente externo, passado, “real” — não se impõe aqui a ideia de representação, mas antes a de presença.

Exemplar, nesse sentido, é a peça em filme dicróico, que funciona quase como um sumário de intenções porque a sua propriedade de mudar de cor consoante a posição do observador ativa, de forma imediata, a consciência de si no espaço — ver torna-se, aqui, também um modo de se perceber enquanto corpo situado. O corpo, de resto, surge exposto: ora pela simples nudez; ora através da ampliação extrema da objetiva, que revela texturas, secreções, superfícies húmidas — elementos frequentemente remetidos para o domínio da repulsa ou da vergonha. Tornam-se visíveis as membranas sensoriais que regulam o contacto com o mundo: a córnea, a mucosa nasal, a superfície da língua. Tecidos vivos e frágeis. Pontos de contágio, mas também de ancoragem: sinais de uma vida inscrita no espaço cartesiano e longe da simulação à distância.

O visitante é convocado a reconhecer, nesses materiais, o corpo enquanto superfície de contacto: lugar de trocas, de exposição e de risco. Contra a leveza do virtual, Membrana sugere um reposicionamento: devolver ao corpo a sua gravidade e reinstalá-lo na espessura do presente, onde a relação com o outro e com o ambiente passa pela partilha de uma vulnerabilidade comum.

Vera Carmo

Nota Biográfica

Barda é uma manifestação de vontade colaborativa que ganhou a forma de coletivo. Enfatiza as artes visuais como meio de transformação e instrumento de empoderamento para comunidades periféricas e utiliza a imagem como ferramenta de intervenção e questionamento, promovendo a criação de sinergias entre comunidade e território através de diálogos experimentais.

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