Fechar
"NO MESMO LUGAR" DE SOBRAL CENTENO E DANIEL BARROCA
MIRA Galerias | Espaço MIRA
Exposição
7.11—31.12.2026
Havia um lugar em Piche, no leste do território que à época se chamava Guiné Portuguesa e hoje se chama Guiné-Bissau, que pertencia a um libanês chamado Toufic, onde os soldados portugueses estacionados no quartel de Piche, durante a guerra, por vezes iam comer e beber nos seus tempos livres. Esses momentos foram fotografados por vários soldados de entre eles o Sobral Centeno, que imprimiram essas fotografias e as fizeram circular de mão em mão ao longo do tempo. Primeiro entre a geração que participou na guerra e que aparece nas imagens e, mais tarde, entre a geração seguinte, que as herdou em álbuns fotográficos que permaneceram mais ou menos suspensos no tempo, dentro de gavetas e armários, no quotidiano do pós-guerra. Uma parte significativa do meu trabalho tem surgido de um dos álbuns com imagens daquele restaurante libanês durante a guerra onde o meu pai também foi soldado.
Quando o Sobral Centeno viu alguns dos meus trabalhos reconheceu esse espaço onde também ele havia estado quando passou pela guerra naquela zona entre 1970 e 1971. “Deixa-me ver se estou aqui...”, disse ele ao reconhecer a sala de refeições onde os soldados se sentavam ao longo de uma mesa corrida. Mas não estava. Porque as fotografias que eu utilizei são dos soldados que o foram render. Ou seja, o batalhão onde o meu pai havia sido incorporado e que chegou em 1972 foi render o do Centeno que lá esteve entre 1970 e 1972. O Sobral Centeno contou-me que foi durante a guerra que, com outros camaradas, aprendeu a fotografar e a trabalhar no laboratório que vários soldados criaram em segredo dentro do quartel de Piche. Fotografava compulsivamente o quotidiano à sua volta, onde os militares portugueses se movimentavam por entre os civis e executavam as missões armadas, que constituíam a experiência diária da guerra de guerrilha contra o movimento de libertação daquele território. As ressonâncias dessa experiência intensa e violenta informou os gestos que deram origem aos desenhos que fez nesse período da sua vida, mantendo-se, com certeza, presentes ao longo da sua prática artística desde então.
Para mim, o diálogo com o Sobral Centeno é como uma ponte muito concreta que me permite aceder um pouco mais vividamente ao passado vivido na guerra que, de forma muito estranha e bizarra através do meu pai, também sinto interiormente que vivi. É estranho quando uma geração olha para a geração que lhe precede parecendo, por vezes, que o tempo se dobra coincidindo em certos pontos. Quando há uma guerra pelo meio essa sensação de coincidência temporal surge de modos ainda mais estranhos. É como olhar para vidas passadas que, atravessadas por episódios de violência quase insanáveis, se continuam repercutindo no tempo. É aqui que eu e o Sobral Centeno nos encontramos. Dois artistas de gerações diferentes que procuram sentidos a partir de um mesmo lugar da mesma guerra.
Daniel Barroca
Curadoria: Manuel Santos Maia