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CARVÃO
de Inês Moura
MIRA Galerias | MIRA FORUM
Exposição
11.01—1.03.2025
De tanto olhar o sol,
queimei os olhos,
De tanto amar a vida enlouqueci.
Agora sou no mundo esta negrura.
À procura
Da luz e do juízo que perdi.
Miguel Torga
Como nos lembraria Miguel Torga através da sua obsessão telúrica, é à terra que devemos sentido e vida, esperança de futuro. Por isso, lhe devemos fidelidade.
“Carvão” reune um conjunto de trabalhos que se apresentam como campo investigativo, acerca de um pedaço de carvão colectado numa fogueira já extinta, encontrada numa floresta - [40.1526908, - 8.436140] - no conselho de Coimbra, em Janeiro de 2021, durante uma caminhada, prática à qual recorro com frequência como forma de observar o mundo que me rodeia e como método de criação artística.
Do mesmo pedaço de madeira queimada, surgiram diferentes processos de descoberta plástica e escrita gráfica, que adquiriram a forma de desenhos, fotografias, colagens ou frottage, explorando as diversas materialidades e significados que o carvão, enquanto matéria plástica pode assumir.
“Carvão” é igualmente a percepção de cuidado para com a terra, mãe da vida e, para com o nosso lugar, ao relmebrar-nos que este pedaço de carvão é também a memória de uma árvore, de uma floresta e de um elemento: o fogo, em todo o seu esplendor e potencial para encriptar mensagens, mas também enquanto símbolo de destruição, apagamento e fim.Já quase ao fundo da sala uma escultura inscreve um círculo negro no chão, em contraste com a luz que emana dos desenhos e das fotografias ao redor e que aqui se reflecte nos brancos ossos que se elevam no topo dos seus prumos. “Branco”, composta por carvão, ferro e osso, elementos que podemos compreender, como vindos ou pertencentes à terra, é a obra que fecha a anamnese da nossa condição e fragilidade, do invisível que se esconde dentro de nós, da inevitável caminhada para o fim.
IM, Janeiro de 2025