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COISAS QUE HABITAMOS, COISAS QUE DELIRAM
de Carla Castiajo
MIRA Galerias | Espaço MIRA
Exposição
25.01—22.02.2025
Pouco depois, desencadeou-se a loucura do mundo.1
Apenas o silêncio onde tudo se reúne. A ilusão e a fantasia convocam a memória e a paixão dos detalhes. As coisas desdobram-se em modos indeterminados — sem fronteiras entre interior e exterior, particular e universal, matéria e espírito, objectos e ideias. Molduras e espelhos afectam-se e contradizem-se — sem li-
mitações. Linhas e cabelos. O esplendor do nós ou a quarta pessoa deleuziana que nesta exposição desperta. Entre a madeira e o vidro, o metal e o tecido, o papel e a linguagem, cada coisa torna-se uma multidão que ora nos atrai ora nos afasta. Suspensas em fios de seda, cabelo e algodão, na forma de alfinetes ou bastidores de madeira, as coisas densas e claras, opacas e transparentes, mostram-se como restos que se oferecem na sua finitude — o que é uma coisa, perguntou Heidegger? Como dizê-la? Procuramos o que os outros não querem saber. Persistimos no tempo e no que existe.
Pés e mãos, sapatos e luvas, guarda-jóias, travessões e ganchos, perucas, bonecas e espelhos — naturezas vivas que nos são dadas através da relação necessária que entre o esquecimento e o horizonte do prazer se instaura. Presenças usadas figuram na disposição soberana de histórias cuja anatomia se imobiliza no mistério das circunstâncias. No reino das coisas, é a invisibilidade dos corpos que sugere a teatralidade e a torna luminosa no espaço, evoca as formas e imagens que, na sua matéria, se abre à superfície, ao afastamento, à consistência ou à fragilidade. O olhar aproxima-se e distancia-se, rasga-se na intenção ou no acidente. Olhar de lado como quem está condenado a fugir de uma poética do toque. Uma qualquer extensão imaginária das máquinas de cena é o que as coisas parecem incorporar — a aventura de, ao contrário do Eclesiastes, correr atrás do vento.
A prática artística, tornada arte do fantasma e do real, assegura a materialidade e os sentidos, os corpos ausentes e presentes, a finitude na pobreza das coisas. Neste modo de ser das existências, nas quais a radical imperfeição consagra a grande saúde nietzschiana, acompanhamo-nos a nós próprios e encontramos a possibilidade de habitar o vasto cosmos. Nas palavras de Joseph Brodsky — um objecto é o que torna íntimo o infinito. Habitar abertamente os delírios e perturbar os nomes que imobilizam as coisas é o que uma exposição ainda pode cumprir.
Eduarda Neves
(a autora não segue o novo acordo ortográfico)
1 Maurice Blanchot — A Loucura do dia. Lisboa: Edições Sr. Teste, 2020, p. 8.
Programa
25 janeiro, 16h
Inauguração da exposição
15 fevereiro, 17h
Performance, ativação da instalação por Maria João Costa Espinho
Nota Biográfica
Carla Castiajo usa o cabelo humano, os pelos púbicos e outros elementos orgânicos como principais materiais na criação de objetos para o corpo ou que aludem ao corpo. Ultimamente, tem utilizado também os têxteis, especialmente os bordados tradicionais portugueses na construção do seu trabalho.
Cruza diferentes áreas artísticas e diversas técnicas, recorrendo aos objetos do quotidiano e / ou a referências aos objetos que a rodeiam – ao doméstico, ao privado, ao íntimo, ao comum, ao mundano, aos momentos da vida quotidiana... As suas criações expõem uma tensão entre os opostos, como atração / repulsão, público / privado, sagrado / profano ou vida / morte. Numa constante reflexão sobre a finitude como uma força vital, toda a natureza humana é registada diariamente, repetidamente...